Andréa Fidelis

Síndrome de Marilyn Monroe: quando a imagem engole o conteúdo

No mês em que a atriz completaria 100 anos, Andréa Fidelis provoca: quanto tempo e dinheiro gastamos para caber no molde inofensivo que o mercado exige?

Em sua coluna, Andréa Fidelis questiona: "Norma Jeane criou Marilyn Monroe. Quem você está inventando para ser aceita?"
Em sua coluna, Andréa Fidelis questiona: "Norma Jeane criou Marilyn Monroe. Quem você está inventando para ser aceita?" Foto : Reprodução Redes Sociais / Divulgação / Montagem CP

Dessa vez, deixa o café de lado. Puxa uma cadeira e vem me acompanhar em uma taça de espumante, porque o nosso brinde de hoje é especial. Se estivesse viva, uma das mentes femininas mais brilhantes e incompreendidas do século passado completaria 100 anos neste mês de junho. Estou falando de Norma Jeane Mortenson.

Se você não ligou o nome à pessoa, não se preocupe. Mas você certamente conhece o personagem que ela criou meticulosamente para sobressair e ascender em uma indústria completamente masculina em 1950: Marilyn Monroe.

Norma Jeane queria ser atriz e se preparou exaustivamente para isso. Ela era uma pessoa profundamente culta para o seu tempo: tinha uma biblioteca com mais de 400 volumes de literatura clássica, lia James Joyce, estudava psicanálise e tinha um entendimento afiadíssimo sobre as pessoas. Por sua sagacidade, logo percebeu que a Hollywood dos anos 1950 não queria a sua profundidade; queria uma fantasia.

Com uma engenharia de imagem milimétrica, ela criou uma persona para furar a bolha do cinema americano. Para isso, modulou uma voz sussurrada para parecer mais infantil, alterou o próprio caminhar limando sutilmente os saltos para torná-lo mais magnético, planejou seus figurinos e tons de maquiagem, e completou o disfarce com o loiro platinado. Nascia ali a Marilyn Monroe.

Ela deu ao mercado o que a lógica masculina queria: uma mulher esteticamente impecável e intelectualmente inofensiva. E esta é a maior ironia da cultura pop: ela usou uma inteligência genial para interpretar a "loira burra e frágil".

Essa fórmula deu tão certo para os negócios que a indústria a repete até hoje. Pensa comigo: a doce e ingênua Penny de The Big Bang Theory, a fútil Karen de Meninas Malvadas e tantas outras personagens de comédias românticas usam exatamente o mesmo molde. A beleza precisa ser inversamente proporcional à capacidade intelectual.

Contudo, olhar para a história dela é um verdadeiro soco no estômago, porque a reduziram a um clichê trágico. Ela acabou engolida pelo próprio disfarce. Ninguém lembra da estrategista Norma Jeane; só lembram do sex symbol Marilyn Monroe.

O perigo real é que esse estereótipo ultrapassou os anos 50 e as telas de cinema, infiltrando-se no mercado de trabalho atual. Nós todas, mulheres, de certa forma, estamos presas a essa regra invisível, despendendo nossas energias e nossa inteligência para parecer “bonitas” aos olhos dos outros, ou seja, nos transformando em um personagem social.

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Deixa eu te fazer uma pergunta bem direta, de mulher para mulher: quanto dinheiro você tem gasto em estética na sua vida? Quanto do seu tempo você consome para parecer mais magra, mais jovem e mais atraente aos olhos dessa sociedade? Faz essa conta mentalmente comigo. Agora, põe na balança: você está investindo essa mesma quantidade de tempo e dinheiro no seu autoconhecimento, sua autorrealização, em estudar e se preparar para crescer no mercado e ser feliz na sua vida?

Existe uma linha saudável entre o autocuidado e a autoestima. É importante se cuidar, se sentir bem e bonita aos nossos próprios olhos. Será que você sabe se já ultrapassou essa linha?

Para ilustrar o tamanho desse fenômeno, a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) aponta que o Brasil disputa anualmente o topo do ranking mundial de procedimentos estéticos cirúrgicos, ultrapassando a marca de 1,5 milhão de cirurgias por ano — sendo a imensa maioria realizada por mulheres. Lipoaspirações, implantes de silicone e procedimentos faciais invasivos movimentam bilhões.

Muitas vezes, nos agredimos fisicamente para aparentar uma idade que não temos. Passamos horas na academia com o único objetivo de modificar o corpo, e não de buscar saúde. Gastamos o nosso tempo que deveríamos usar para descansar, conversar, passear com os amigos ou dormir. Gastamos dinheiro para agradar aos outros, nos desagradando todos os dias e perdendo momentos preciosos de lazer, viagens ou um bom café com aqueles que realmente nos são caros.

Bilhões de dólares são movimentados para nos manter escravas de um padrão inalcançável de juventude e magreza, na ilusão de sermos aceitas. Mas me diz: gastar tanto tempo em parecer bela pelos olhos dos outros não nos faz ficar presas à "burrice da loira" na sociedade? Será que, sem perceber, não estamos gastando energia demais na embalagem e deixando de lado o conteúdo que realmente vai nos libertar?

Norma Jeane sabia que Marilyn era um disfarce comercial. O problema é que o mercado exige tanto o personagem que a fronteira entre a criadora e a criatura desabou em uma depressão profunda. Ela se perdeu e se prendeu na própria armadura. Hoje quase ninguém conhece a verdadeira Norma Jeane. Será que isso pode acontecer com você também?

Quantas de nós não fazemos o mesmo nas empresas durante toda a nossa vida profissional? Quantas vezes você já modulou o seu tom de voz para não parecer "agressiva" ou se fez de dócil para ser aceita por uma liderança masculina? Você é uma mente brilhante como Norma Jeane, mas passa os dias tentando performar uma Marilyn inofensiva na aparência e no comportamento?

Usar a imagem a nosso favor faz parte do jogo. O erro é deixar que o disfarce engula quem nós somos. Norma Jeane não teve tempo de resgatar a sua própria essência. Nós temos. E você, já sentiu que precisou se "apequenar" intelectualmente ou se escravizar esteticamente para caber no molde do mercado? Deixa o teu comentário aqui embaixo, quero muito saber a tua opinião.

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).