Puxa uma cadeira e capricha no café — hoje ele precisa ser forte, porque o assunto vai mexer com as nossas estruturas. Quero te propor uma provocação logo de cara: você acredita que a forma masculina de liderar o mundo e as empresas é, de fato, a mais eficiente?
Deixa eu te contar sobre um experimento social polêmico realizado pela televisão britânica. Eles colocaram dez meninos, entre 10 e 11 anos, sozinhos em uma casa por uma semana, sem adultos. Em outra casa idêntica, colocaram dez meninas da mesma idade. O objetivo era testar a independência e a capacidade de autogestão desses pré-adolescentes.
Mulheres (e os homens emocionalmente maduros que acompanham este espaço), preparem-se. Em menos de 12 horas, os meninos praticamente destruíram a casa. Picharam as paredes, quebraram móveis, passaram a semana sem tomar banho, alimentaram-se exclusivamente de salgadinhos e refrigerantes, e iam dormir depois das três da manhã.
Para organizar o caos, criaram uma hierarquia rígida por meio de uma votação: elegeram um líder e obrigaram os meninos mais fracos a lavar a louça e fazer algumas tarefas sozinhos. Instauraram privilégios e disputas de poder tão violentas que os psicólogos do programa precisaram intervir várias vezes. Qualquer semelhança com a estrutura geopolítica e corporativa atual não é mera coincidência.
Enquanto isso, na outra casa... as meninas começaram o primeiro dia redecorando os ambientes. Fizeram uma divisão colaborativa de tarefas baseada nas habilidades e preferências de cada uma. Decidiram dormir todas no mesmo quarto para fortalecer o vínculo, cozinhavam juntas (teve até bolo de chocolate de sobremesa), tomavam banho todos os dias e ajudavam umas às outras a pentear os cabelos. Houve conflitos? Claro que sim. Mas a ferramenta escolhida por elas para resolver as divergências foi a conversa.
Aí eu te pergunto: essa diferença brutal é biológica? A neurociência e as pesquisas contemporâneas já provaram, exaustivamente, que não existem diferenças significativas nas capacidades intelectuais ou de liderança inatas entre cérebros masculinos e femininos. A diferença é puramente cultural e social.
Desde o berço, nós, mulheres, somos cobradas a cuidar, limpar, organizar e nos responsabilizar pelo bem-estar do coletivo. Reparem nos brinquedos que ganhamos quando crianças: bebes, panelinhas, livros de pintar, maquiagem, entre outros. Já os meninos, historicamente, são criados sob a lógica da liberdade sem contrapartida, focados nos próprios desejos e na autovalorização. São estimulados a aventuras com jogos de poder, carros de brinquedo, bonecos e competição.
- Você e Meryl Streep têm mais em comum do que imagina
- Nunca é tarde: como ouvir sua própria voz e recomeçar a vida
- Ambiente de trabalho tóxico prejudica empresas e colaboradores, alerta psicóloga
- Conheça as novas colunistas que chegam ao Bella Mais em junho
Me conta de verdade: você também caiu nessa armadilha social que nos induziram a pensar que a nossa natureza é passiva? Que a sobrecarga no cuidado da casa, dos filhos do trabalho é responsabilidade só sua? Você duvidou de você e se achou fraca por ser empática, solidária e por pensar primeiro nos outros? Se achou que era natural cuidar de tudo e de todos facilitando a vida de todos os homens que convivem com você (inclusive seu pai, seus irmãos, seus filhos, seu marido, seus colegas homens e seu chefe)? Você acreditou por um momento que o lugar das mulheres é em casa cuidando dos filhos e do homem é na rua ou onde ele quiser?
Se você está me acompanhando neste percurso aqui no Bella Mais, sabe que o nosso propósito é resgatar a nossa autoestima profissional. Fomos culturalmente programadas para duvidar de nós mesmas e para acreditar que o modelo masculino de gestão — focado no teto de gastos individual, no cada um por si e na competição predatória — é o único sinônimo de "alta performance". Mas o experimento mostra que, no fundo, a liderança feminina foca na sustentabilidade e na colaboração.
Não estou aqui dizendo que somos superiores aos homens. Longe disso. Mas a verdade precisa ser dita: nós não somos piores. E, definitivamente, o jeito deles de gerenciar o mundo não é o único — e talvez nem seja o melhor (estou tentando ser polida, mas esse jeito já faliu e nos levou junto).
Agora, quero que você imagine se as mulheres governassem a maioria das grandes potências e corporações? Como seria o nosso mundo hoje? Mas digo governar e adminsitrar do jeito feminino e não se masculinizarem, como muitas de nós fazemos quando chegamos ao poder.
Quero te convidar a encarar essa realidade e parar de achar que a sua empatia e o seu olhar voltado para as pessoas te fazem "fraca" no mercado. Essa é, na verdade, a tua maior competência.
Agora a conversa é contigo. Se você comandasse as regras do jogo hoje, o que mudaria primeiro? Deixa o teu comentário aqui embaixo, quero muito ler a tua opinião e continuar esse debate com você!
Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).
