Adriana Haas

O reflorestamento da meia-idade

Adriana Haas aborda como a monocultura de roteiros femininos dá lugar a novas perspectivas e rupturas que impulsionam o florescimento pessoal

Adriana Haas compara a meia-idade a um processo de reconstrução, em que rupturas podem abrir espaço para novos caminhos e perspectivas
Adriana Haas compara a meia-idade a um processo de reconstrução, em que rupturas podem abrir espaço para novos caminhos e perspectivas Foto : Magnific / Divulgação / CP

O roteiro seguido pela maioria das mulheres que hoje estão na maturidade faz parte de um território comum: estudar, construir uma carreira, encontrar um parceiro, formar família, conquistar estabilidade. Ele não foi escrito por ninguém em particular, mas funciona como lei e atua como monocultura, perpetuando-se na ausência de diversidade. Uma monocultura ocupa o terreno inteiro com uma única espécie e descarta o que não serve àquela produção. Isso empobrece o solo, da mesma forma como um roteiro único empobrece a vida, eliminando a multiplicidade de desejos, sufocando o que é diferente e não deixando espaço para o que cresce fora do cronograma.

Nesse sistema, a maturidade aparece como um solo exaurido. A cultura sugere contenção, recuo, adaptação. O mercado descarta a experiência com a mesma naturalidade com que valoriza a juventude. A pressão estética aumenta em vez de diminuir. A invisibilidade social se instala. E a transição hormonal da menopausa, com efeitos físicos e emocionais que podem ser intensos, chega para tornar tudo ainda mais desorientador. Ficamos confusas num terreno para o qual não temos mapas – e, como pouco se fala sobre essa dimensão do amadurecimento feminino, também nos sentimos solitárias nele.

Mas as mulheres maduras contemporâneas já percebem que essa monocultura nos impede de florescer, limitando até a nossa capacidade de imaginar futuros possíveis quando ainda temos metade da vida pela frente. Anos em que queremos germinar sonhos, fazer brotar sementes de outras espécies, testar nosso chão para descobrir o que nele pode viver e o que precisa morrer para abrir espaço. Queremos semear a nós mesmas, com nosso solo único, e cultivar novas perspectivas.

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É nesse contexto que as rupturas da maturidade chegam. Uma separação, um luto, a independência dos filhos, uma virada profissional. Essas disrupções doem – mas também revolvem a terra. E é justamente aí que pode começar o reflorestamento, com o plantio de outras sementes. Novos caminhos profissionais que partem de dentro, não de expectativas externas. Relacionamentos construídos com mais consciência. Uma relação diferente com o corpo, de menos vigilância e mais presença. Desejos antigos que voltam a ter vez. Vínculos com outras mulheres também que estão ali.

Refloresta quem planta espécies diversas e aceita que nem tudo cresce no mesmo ritmo nem na mesma direção. Quem entende que o que brota fora do cronograma pode ser o mais vigoroso. Um número crescente de mulheres está fazendo isso: construindo, na maturidade, narrativas que não cabiam no roteiro anterior. São histórias individuais que, ao mesmo tempo, compartilham um campo comum. A meia-idade, com as desafiadoras rupturas que nos impõe, pode ser tempo de nos reflorestarmos.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.