Qual é a dor mais comum entre as mulheres com a chegada da maturidade? Há algumas respostas possíveis, mas eu diria que são as mudanças físicas. De repente, você começa a ganhar peso, ainda que mantenha a mesma dieta e rotina de atividades físicas. A gordura se acumula em lugares diferentes e o corpo muda de forma. Os cabelos embranquecem e afinam, os músculos vão perdendo o tônus, as rugas avançam pelo rosto. É a declaração pública de que estamos envelhecendo.
A forma como lidamos com isso varia de acordo com a cultura em que crescemos. Em alguns países, a sociedade é mais generosa com as mulheres que envelhecem. Como consequência, a experiência feminina da passagem do tempo se torna mais suave e essas mulheres não impõem a si mesmas cobranças insalubres para manter uma imagem jovem. Pelo contrário, elas conseguem ver (e aproveitar) os ganhos que a experiência de vida oferece e alcançam uma liberdade sem precedentes. Mas não é o caso de países como o Brasil, onde a juventude é considerada um valor – e quem não mais a tem se torna irrelevante.
Esse desconforto é ainda maior para as mulheres que fizeram largo uso de sua aparência – não apenas para seduzir, mas para conquistar a atenção alheia em qualquer ambiente (e isso é uma observação, jamais uma crítica). Elas se valeram do capital social que a juventude e a aparência lhes concederam, então acabam sofrendo mais quando o perdem. É difícil desapegar daquela imagem que lhes rendia algum tipo de “bônus” e aceitar que ela não voltará a ser uma realidade.
Posso contar nos dedos de uma mão as mulheres com quem já conversei que não se importam com o envelhecimento físico – e eu não estou entre elas. Desde as mudanças mais evidentes no contorno dos olhos até as menos perceptíveis, como aquela gordurinha perto da axila que salta quando o top aperta, volta e meia uma mudança na aparência me incomoda. Algumas mais, outras menos, em alguns dias mais, em outros menos.
Há anos venho trabalhando para que isso deixe de perturbar a minha paz, mas também não me culpo por me sentir assim. Sou fruto de uma sociedade que considera o envelhecimento um defeito, e essa crença está em um lugar tão profundo dentro de mim que é difícil superar.
Mas sigo me aprimorando, porque aceitar que passamos a ter um novo corpo é essencial para que a maturidade seja uma etapa de explorações e descobertas. A gordurinha do sovaco vai permanecer ali, as rugas vão aumentar, os cabelos vão branquear – e eu não quero desperdiçar meu tempo, energia e dinheiro numa luta que não posso vencer.
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Como a maioria das mulheres, sei bem o que é encarar o corpo como inimigo ao longo de toda a vida, quando ele não se sujeita aos nossos desejos sobre como deveria ser. Na maturidade, precisamos fazer as pazes com nossos corpos – que, assim como nossas mentes, estão em transformação. É hora de celebrá-los como o que nos permite sentir a vida, saborear o mundo, experimentar prazeres. Ele é a tradução mais concreta de quem somos, no exato momento que vivemos. Quer motivo melhor para amá-lo?
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.
