Havia algumas jovens, até adolescentes, entre as participantes de uma sequência de três palestras sobre menopausa. Era um grupo pequeno e eu seria a última a falar, então, pude observá-las. Elas escutaram a dermatologista orientando sobre os cuidados com a pele para evitar os sinais do tempo. Fizeram perguntas e participaram do debate, mas se embrenharam em conversas paralelas enquanto a segunda palestrante, uma nutricionista, ensinava sobre a alimentação durante as mudanças hormonais.
Quando comecei a parte da conversa que me cabia conduzir, ainda tinha um fiozinho da atenção delas – mas o perdi ao comentar que a menopausa, aparentemente tão distante aos 20 e poucos anos, chega em nossas vidas bem antes da última menstruação. A transição hormonal que a precede (e que balança nossas estruturas físicas e emocionais) começa por volta dos 40. Essa informação, difícil de engolir, tornou bem mais atrativa a degustação de comida funcional no espaço ao lado. Elas iam e voltavam, carregando mais pedaços de brownie do que interesse pelo que as espera em alguns anos.
Mas quem sou eu para julgar? Quando tinha a idade delas, também não queria nem saber de menopausa. Ela era um “carimbo” que classificava a mulher como velha. E como quase todas as jovens que vivem em uma cultura etarista, eu não queria sequer me imaginar envelhecendo. Em maior ou menor grau, essa perspectiva nos apavora. Imaginamos um futuro em que não seremos mais desejadas, amadas e admiradas. Melhor nem pensar a respeito enquanto for possível evitar.
Uma jovem, no entanto, não desviou os olhos enquanto falávamos. Estava sentada bem perto, guardando cada palavra. Não queria fugir do futuro ao qual chegará, se tiver a sorte de envelhecer. Ao final, ela me procurou com um exemplar do meu livro em mãos. Apontou para o selo da capa, que indica a leitura para mulheres com mais de 35 anos, e disse que ainda não chegou lá, mas quer se preparar.
Será que precisa? Não dá para cuidar só da pele para fora nos anos da juventude e deixar para mais tarde o que acontece da pele para dentro? Dá, mas tem um problema. A gente vai postergando essa preparação até que os efeitos das oscilações hormonais já estejam instalados e, associados aos estigmas em relação ao envelhecimento feminino, começam a sacudir o território interno.
Então, quando nosso chão começa a tremer, a maioria não sabe do que se trata porque não se preparou. É assim que as mulheres maduras de hoje estão lidando com o climatério: quando se descobrem nele, tentam selecionar o que é útil no excesso de informação e se equilibrar em um bombardeio de “possíveis sintomas quase certos”, alardeados de forma a nos meter medo para vender soluções que serviriam para todas.
Cada mulher passa pelo climatério de um jeito, de acordo com sua biologia, o contexto em que vive, sua história e até mesmo suas crenças. É uma etapa cheia de desafios, mas com boa companhia e orientação, pode ser a de maior crescimento pessoal em uma vida inteira. Nunca é tarde para se preparar – e se tiver brownie, melhor ainda.
- Comece do jeito que dá
- Desistir pode ser sua melhor decisão
- O que precisa ficar para trás
- Sua próxima viagem será essa
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.
