Adriana Haas

O veneno anti-envelhecimento

Adriana Haas questiona o impacto intoxicante do etarismo na vida das mulheres

Etarismo é o preconceito e a discriminação contra pessoas devido à sua idade, afetando principalmente mulheres
Etarismo é o preconceito e a discriminação contra pessoas devido à sua idade, afetando principalmente mulheres Foto : Pexels

Você deve ter acompanhado alguns capítulos da separação da Shakira, que há cerca de dois anos foi traída pelo então marido com uma mulher bem mais jovem. Em meio a todos os detalhes curiosos (como a geleia de morango que teria ocasionado a descoberta da traição), teve um que me chamou a atenção – porque afeta não apenas a Shakira, mas todas as mulheres que estão na maturidade.

Segundo as notícias, um dos incômodos da cantora durante o divórcio teria sido as “ofensas” proferidas pela namorada de seu ex ao referir-se a ela – que vai completar 48 anos – como “velha” e “menopáusica”. Jamais saberei se é verdade, mas me interessa o fato dessas palavras serem utilizadas (e noticiadas) como “xingamentos”.

Não é novidade e nem acontece só com as famosas. Minha professora de 73 anos contou que, ao solicitar a uma mulher mais jovem que liberasse a vaga de idosos no estacionamento de um shopping, recebeu como resposta que “ela não produzia mais nada e não iria consumir”, motivo pelo qual deveria voltar para casa e recolher-se até a morte chegar.

Episódios como esses acontecem todos os dias – e é provável que você também tenha protagonizado alguns, assim como eu. Trata-se do preconceito mais bem-aceito entre nós: o etarismo (ou idadismo), que alimentamos ao associar o envelhecimento a coisas negativas, como a incapacidade, a irrelevância ou a feiura. Também é o preconceito mais democrático que existe, porque todos nós passaremos por ele quando envelhecermos (ou melhor, apenas os que tiverem a sorte de chegar lá).

Já seria terrível se vitimasse apenas as outras pessoas, mas o etarismo é um veneno que, ao ser liberado, também intoxica a gente. Como você acha que a jovem que chamou Shakira de velha, associando esse adjetivo a uma pessoa de menos valor, se sentirá quando se aproximar dos 40? E a moça do shopping, aos 70? Se não aproveitarem o tempo para se livrar do preconceito, cada ano será considerado mais um passo rumo ao precipício.

Não surpreende, portanto, que a grande maioria de nós tenha pavor de envelhecer. O medo é tão grande que, na juventude, a gente nem pensa que essa hora vai chegar – e muito menos se prepara para isso. Então, quando o tempo começa a mostrar sua força em nossa pele, nos desesperamos.

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Além de atender a todos os requisitos pelos quais somos cobradas a vida inteira (ser magra, tamanho do peito, grossura da sobrancelha, cor da unha e todos os outros centímetros quadrados vigiados de nossos corpos), precisamos fazer qualquer negócio para parecer mais jovens. Quem faz pouco, é desleixada. Quem faz muito, torna-se “ridícula”. Sob a lâmina do etarismo, estamos sempre desajustadas.

Há alguns anos venho combatendo o meu próprio etarismo, que já me causou muito sofrimento pelo que fiz aos outros e a mim. “Velha” deixou de ser um adjetivo negativo para se tornar um substantivo, um lugar para onde estou caminhando – e cujo trajeto inteiro pode ser muito bonito se eu permitir que seja. Queria ter começado antes, teria penado menos e economizado um bom dinheiro. Mas hoje não é tarde para ser mais feliz que ontem.


Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.