Adriana Haas

“Despriorizar” para viver mais leve

Adriana Haas incentiva mudanças na lista de prioridades como caminho para uma vida mais feliz

Na maturidade, é natural que prioridades e “desprioridades” mudem
Na maturidade, é natural que prioridades e “desprioridades” mudem Foto : Freepik

Os livros são excelentes, mas as pessoas podem nos ensinar muito. Conversava com uma mulher sobre o “salto de qualidade” que ela diz ter dado depois dos 50 anos, quando decidiu reavaliar suas prioridades. Depois de uma vida inteira em que sua lista foi encabeçada pelos filhos e pelo trabalho, decidiu que era hora de inverter algumas ordens. A principal delas foi colocar a si mesma em uma posição superior no ranking, dedicando mais tempo às coisas e pessoas que lhe trazem prazer e alegria.

Teve quem estranhou suas mudanças, embora nenhuma tenha sido radical. Alguns a chamaram de egoísta por, veja só, dedicar a si o seu próprio tempo. Como se o tempo das mulheres (logo, suas vidas) devesse estar disponível para ser utilizado de acordo com interesses e conveniências que não fossem as delas. Para persistir, precisou aprender a ignorar opiniões alheias e dizer alguns “nãos” que a fizeram sentir culpada. “Fácil não é, mas está sendo libertador”, contou.

Quando a gente escuta histórias como essa, a admiração logo é seguida pelo sentimento de incapacidade. Temos prioridades demais para poucos lugares no topo da lista, e costuma ser bem difícil manejá-las. Há muito a ser considerado e tudo parece importante. Nessas horas, uma boa saída pode ser “despriorizar” em vez de priorizar. Parece mero jogo de palavras, mas ajuda o cérebro a trabalhar a nosso favor.

Quando tentamos priorizar em um cenário cheio de tarefas, o cérebro precisa avaliar muitos critérios. Como ele tem uma capacidade limitada de atenção e processamento, priorizar acaba se tornando uma atividade custosa. Só de pensar, já desanimamos.

Por outro lado, “despriorizar” funciona como um processo de eliminação em que descartamos o que é menos importante, simplificando o trabalho do cérebro e facilitando a nossa tarefa.

Eu aposto que, assim como eu, você fica um pouco estressada quando precisa eleger prioridades. Isso é natural porque buscamos justificar as nossas escolhas atribuindo valor a elas, em um processo que ativa áreas do cérebro ligadas ao estresse. Quando eliminamos opções, reduzimos o estresse associado à decisão – um sentimento que nos leva a deixar essa decisão para aquele “depois” que nunca chega.

Na maturidade, é natural que prioridades e “desprioridades” mudem. Nos deparamos com outras necessidades, descobrimos características novas em nós, desejos surgem ou renascem. Mas para que essa tendência natural nos conduza a uma vida mais leve (e não a achar que estamos ficando loucas), a gente precisa reordenar as coisas, conciliando as mudanças internas com as possibilidades externas. Isso exige ações que irão desagradar alguns – mas pode ser exatamente esse o ponto de virada para uma bela desimportância.

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Eu aprendo muito com mulheres maduras que estão mudando suas prioridades para serem mais felizes (em geral, depois dos 50, mas várias estão se antecipando). E não precisam ser mudanças grandes – às vezes, pequenas “despriorizações” já fazem uma diferença enorme. Os livros são excelentes, mas as pessoas podem nos ensinar muito mais.


Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.