Adriana Haas

Decidiu que seria dente de leão

Adriana Haas celebra as incertezas da maturidade, apostando em uma percepção positiva diante das adversidades da vida

O dente de leão é capaz de brotar onde quer que o vento o leve
O dente de leão é capaz de brotar onde quer que o vento o leve Foto : Edson Silva / Pexels

Ela tinha certeza de que só poderia ser feliz com todos os recursos de uma cidade grande. Quando o marido foi transferido para o interior, decidiram que um iria e o outro ficaria, para se encontrarem apenas nos finais de semana. Ou melhor: nem chegaram a colocar a questão sobre a mesa, ainda que apreciassem muito seus momentos juntos. Certezas não se prestam a discussões e nem estão abertas a possibilidades. Era claro que teria de ser assim.

Mas antes que a mudança acontecesse, a intuição a avisou: suas certezas estavam lhe tirando a liberdade. Lembrou-se de ter lido sobre a diferença entre a orquídea, que precisa de uma série de condições para florescer, e o dente de leão, capaz de brotar onde quer que o vento o leve. Deixou para trás a certeza e foi experimentar-se na cidade pequena. Queria ser dente de leão.

A história ainda não tem final, mas vem sendo muito feliz graças a essa e a uma série de outras certezas abandonadas depois dos 40 anos. No entanto, não foi tão fácil quanto dois parágrafos dão a entender. A essa altura da vida, quando já temos raízes profundas em terrenos bem conhecidos, mudar o que acreditávamos definitivo a nosso respeito é um desafio e tanto – ainda que, lá no fundo, a gente pressinta o frescor que pode trazer.

Quando nos tornamos adultas, costumamos ter ideias fixas sobre quem somos. Elas vêm lá de trás e se baseiam em muitas coisas, como o que as pessoas falavam sobre nós, nossa admiração por algumas delas (que, inconscientemente, passamos a “copiar”) e as características que fomos desenvolvendo como “estratégias de sobrevivência”. Formamos isso que, ao longo da vida, chamamos de “identidade”. Nos agarramos a ela para definir quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.

E tudo segue mais ou menos em ordem até que a maturidade chega para bagunçar. Nesse ponto aproximado da metade de nossas vidas, é muito comum questionarmos partes dessa identidade. De repente, descobrimos que características que achávamos que nos definiam não eram bem nossas e não servem mais para o que desejamos viver na outra metade. A perspectiva de mudá-las, antes impensada, torna-se assustadora – mas nos abre para novos territórios.

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Eu decidi ser dente de leão em vez de orquídea, e é o que observo cada vez mais em mulheres por volta de 40 ou 50 anos. Se você olhar para os lados com atenção, vai ver que muitas estão explorando outros chãos, em mudanças que podem ser enormes ou bem pequenas. Ou podem começar pequenas e acabar enormes. Ou terem intenção de ser enormes, mas descobrirem que pequeno já basta. Cada mulher é única e sabe (ou pode descobrir) o tamanho do que lhe trará significado nessa nova etapa. O importante é não deixar que certezas ultrapassadas criem um terreno árido onde não seja possível crescer para lado nenhum.


Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.