Enquanto você me lê, estou a caminho do Uruguai para um intensivo de uma semana entre vinho e doce de leite. Uma viagem que não estava programada e nem prevista no orçamento, mas o final de ano foi tão puxado que decidi me presentear com ela. Foi o famoso “eu mereço”, que a gente usa para justificar extravagâncias de diferentes calibres (da sandalinha ao carro novo).
Quando era jovem, usei o “eu mereço” indiscriminadamente para comprar coisas que me fizessem sentir melhor. Resultado: satisfações breves, closet abarrotado e um excesso que, em vez de liberdade, virou peso. Eu tinha depositado lá, em armários e cabides, meu tempo de vida – pois é ele que trocamos pelo dinheiro, em forma de trabalho.
Desde que amadureci e passei a valorizar mais o meu tempo, o “eu mereço” mudou de destino. Em vez de bens materiais, prefiro investir meu dinheiro em experiências. Só depois vim a saber que essa decisão intuitiva tinha respaldo científico, pois foi comprovado que a satisfação que obtemos com as coisas que compramos dura muito menos do que com as experiências que vivemos.
Vejo como uma mudança de perspectiva natural quando percebemos o tempo passando mais rápido do que há 20 anos. Afinal, se não temos mais a vida inteira pela frente, é preciso lambuzar-se com ela no tempo que resta. “Eu mereço” que, no final da vida, minha retrospectiva seja cheia de momentos de prazer. Com as coisas a gente acostuma rápido e logo quer mais, mas as experiências seguem reverberando por muito tempo.
É claro que mesmo as experiências precisam ser ajustadas ao orçamento. Se não dá para o Uruguai, talvez uma cidade próxima ou o restaurante que você curte. Ou em casa, num encontro tipo “cada um leva um prato” com as pessoas que ama. Na maturidade, o tempo de vida torna-se nosso ativo mais valioso – e precisamos aprender como investir nele.
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Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
