Aposto que você sabe sobre a importância de viver no presente em vez de deixar a cabeça ancorada no passado ou vagando pelo futuro – afinal, é o único tempo que temos condições de influenciar para ter uma vida mais bacana. O que talvez você não saiba é que, se já passou dos 40, tem vantagem para colocar isso em prática.
Na medida em que amadurecemos, vamos mudando nossos objetivos graças à capacidade exclusivamente humana de entender o tempo. Na juventude, quando percebemos o tempo como a linha inalcançável do horizonte, damos prioridade às metas para o futuro. Mas os anos se sucedem e, ao sentir isso na pele, começamos a mudar o foco, buscando a gratificação no presente – o que significa priorizar experiências significativas aqui e agora.
Isso foi documentado pela pesquisadora Laura Carstensen, da Universidade de Stanford. Segundo ela, trata-se de uma tendência natural quando percebemos a passagem do tempo. Mas se é assim, por que temos tanta dificuldade de viver no presente quando estamos entrando na maturidade, mais ou menos entre os 40 e 50 anos? A minha hipótese é que, em um mundo que demanda tanto das mulheres, confundimos essa mudança de prioridades com “perder o ritmo”. Esse ritmo que não estabelece limites saudáveis à produtividade, à agilidade, à resiliência, às conquistas, ao acúmulo. Que nos deixa viradas do avesso, mas apavoradas com a ideia de parar de correr e “ficar para trás”.
Dessa forma, a gente passa os dias “dando conta” de uma sucessão de tarefas e compromissos pouco estimulantes. Em um contexto desses, é tentador ficar suspirando por um futuro melhor ou lamentando pelos “bons tempos” que já se foram. Para o hoje, adotamos uma forma de pensamento chamada de “roteirizada”, que oferece sempre as mesmas respostas – até que o hoje acabe. Reduzimos a vida a “fazer o que precisa ser feito" – até que a vida acabe.
Mas como seria possível sair dessa roda-viva antes de ser engolida? A pesquisa dá algumas pistas, como dedicar energia às relações sociais que proporcionem alegria e investir mais em experiências do que em bens materiais. Em resumo, estar com pessoas e fazer coisas que dão prazer, esse afeto que nos chega tão atravessado por conceitos mal-colocados e até por culpas. Alcançamos a maturidade sem conhecer o que nos dá prazer e/ou sem coragem para vivê-lo. Acabamos nos contentando com sobras dos prazeres alheios – que têm o seu valor, mas cujo deleite não é nosso.
Um exercício valioso para o fim de ano pode ser relacionar três coisas que lhe dão prazer e que você venha exercitando. O seu prazer, não o do parceiro, dos filhos, dos amigos ou de quem quer que seja. Prazeres de todos os tamanhos e custos. Prazeres que os outros talvez nem entendam, mas funcionam para você. Caso não consiga preencher a lista, esse pode ser um bom projeto para que, em 2025, você consiga seguir a natureza do seu tempo, vivendo no presente e sendo mais feliz. Será a melhor “lista de presença” da sua vida.
Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
