Adriana Haas

Comece do jeito que dá

Adriana Haas incentiva os primeiros passos para encontrar novos caminhos na maturidade

As oportunidades para (re)começar moram em todos os lugares
As oportunidades para (re)começar moram em todos os lugares Foto : Nick Scheerbart / Unsplash

É batata! Basta que eu escreva ou fale sobre desistir do que não nos serve mais na maturidade (como na coluna da semana passada) que recebo perguntas e comentários. A maioria diz respeito à incerteza sobre o que vem depois da desistência.

“Na minha idade, não sei por onde começar e nem confio no meu taco”, me disse uma mulher no auge de seus 53 anos. Justamente na fase em que podemos aliar experiência e regulação emocional (duas peças fundamentais para qualquer estreia), acreditamos estar ultrapassadas.

É natural que nos sintamos assim em uma sociedade que supervaloriza a juventude. E temos que admitir que os jovens contam com uma vantagem em relação à começar alguma coisa: o tempo que ainda têm pela frente, que lhes permitiria (em tese) recomeçar muitas vezes depois de errar. Embora seja apenas uma probabilidade e não haja garantias sobre o tempo de vida de ninguém, a juventude é bem autoconfiante quanto a isso.

Na maturidade, no entanto, podemos nos valer de outro trunfo: a intuição. Ela atua a partir do nosso inconsciente, onde estão armazenadas a maior parte das nossas memórias, que não conseguimos acessar conscientemente. É uma inteligência que se manifesta através do corpo. Quando algo acontece, a gente simplesmente sabe o que fazer. Não é mágica – é repertório, formado por tudo o que já vivemos.

Mas como a intuição pode ajudar quando o assunto é encontrar caminhos para a segunda metade da vida? É simples, mas não evidente: ela os indica por meio das nossas emoções. Então, se alguma coisa desperta o seu interesse e dá uma sensação gostosa, por que não investigar? As oportunidades para (re)começar moram em todos os lugares, nós é que insistimos em procurar apenas nos mais óbvios.

– Ok, a intuição está chamando – mas cadê a coragem? A essa altura da vida, não tenho mais tempo para errar!

Você estaria mais ou menos certa se me respondesse assim. Fracassos sempre vão acontecer, em qualquer idade. Mas, de fato, precisamos buscar ser o mais certeiras possível quando chegamos na metade da vida. Uma alternativa é começar pelos menores passos que possam ser dados sem demora. Quando a gente começa a se movimentar, vai percebendo que é capaz – como consequência, a autoconfiança vai aumentando.

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Além disso, quando vamos na miúda, dá pra sentir um “gostinho” do objetivo final. Isso motiva o cérebro a persistir se o gosto agradar – e, caso não agrade, não teremos investido tanto tempo e recursos que possam nos impedir de desistir. Dá pra mudar a rota com menos sofrimento.

Sem contar que, quando a gente muda de lugar, consegue ver novas paisagens (e outros ângulos das mesmas coisas). Conhecemos pessoas que também podem nos oferecer pontos de vista diferentes. Além de exercitar a autoconfiança, vamos enriquecendo nosso repertório (aquele que abastece a intuição). A gente se abre para o mundo e ele se abre para nós.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.