Adriana Haas

O que precisa ficar para trás

Adriana Haas reflete sobre o processo de ruptura, que é difícil, mas necessário para dar um novo passo

Abrir mão do que nos foi valioso machuca, mas é necessário para dar um novo passo
Abrir mão do que nos foi valioso machuca, mas é necessário para dar um novo passo Foto : Brian Mann / Unsplash

Fiquei careca. Por espontânea vontade, adiantei o momento em que, em decorrência da quimioterapia, perderia os cabelos. Alguns acharam que me precipitei, pois ainda tinha a maior parte dos fios – e há pessoas que, mesmo com a calvície profetizada pelos médicos, terminam o tratamento com uma boa quantidade de cabelos. Mas minhas chances eram quase inexistentes, então decidi abreviar o sofrimento.

Fazia cinco ou seis dias que estavam caindo. Eu encontrava cabelos por todo canto da casa, acordava com eles colados no rosto, acabava com os fios na mão quando tentava arrumá-los. E sofria cada vez que isso acontecia. Então, optei pela máquina zero. Ouvi as lamentações das mulheres que me observavam no salão, mas o que senti foi a liberdade de deixar, junto com os cabelos, a ilusão de que não os perderia.

| Foto: Arquivo pessoal

Quando jovem, vivi episódios em que não conseguia fazer as rupturas que sabia serem necessárias. Arrastei situações e relacionamentos que estavam se desmanchando por acreditar que iriam mudar, que dessa vez seria diferente, que eu seria exceção. Acabei prolongando o sofrimento pelo que já estava destinado a morrer.

Na maturidade, é mais fácil perceber o momento de passar a máquina – em alguém, uma situação ou até em nós mesmas, abandonando ilusões que não caem bem para mulheres sem tempo a perder. O radar que identifica o que não nos serve está apurado. No entanto, fazer a ruptura continua sendo uma tarefa dura. Abrir mão do que nos foi valioso machuca, mas é necessário para dar um novo passo.

Eu estudo sobre transições de vida há quase dez anos. Já pesquisei muitas fontes, das mais diferentes áreas e crenças, e encontrei um consenso: a primeira etapa de uma transição é deixar para trás o que não serve mais. Vale tanto para as transições voluntárias, como um divórcio, quanto para as involuntárias, como o envelhecimento. Em qualquer delas, há cenários cheios de possibilidades pela frente, mas elas precisam de espaço para se instalarem. E é você quem precisa criá-lo.

O problema é que temos dificuldade para abandonar até as coisas mais incômodas – mesmo que, na maturidade, seja mais comum termos de lidar com perdas inevitáveis como a morte de pessoas, separações, saída de um emprego ou a própria mudança na aparência.

Detestamos perder – ainda mais quando não há certeza sobre o que colocaremos no lugar. E essa é mais uma característica das transições: por mais que você tente planejar, elas são um salto de fé. Quem acredita na vida, encontra coragem e vai. Quem não acredita, permanece abraçada a seus fantasmas.

A maturidade é uma das maiores transições da vida – especialmente para as mulheres, com a chegada da perimenopausa. Bem diferente do quadro de “tragédia pessoal” como vem sendo pintada, ela pode ser um manancial de liberdade e criatividade para uma etapa mais rica. E, de quebra, ainda pode lhe dar o ímpeto necessário para os cortes radicais que precisa fazer.

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Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a especialização em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.