A semana passou voando. Parece que foi ontem que você leu minha coluna anterior e já estou aqui de novo. O ano, então, nem se fala – daqui a pouco vai ter panetone no supermercado. É curioso como, se compararmos com a infância, parece que o tempo lá se espichava, cada dia era uma eternidade. Mas a gente vai envelhecendo e começa a sentir o tempo em nosso encalço.
A vida oferece pouquíssimas certezas, mas uma é indiscutível: o tempo passa na mesma velocidade para todo mundo, em qualquer fase da vida. Então como é que ele parecia mais lento e desfrutável quando éramos crianças do que agora, na maturidade?
Existem algumas diferenças no cérebro de crianças e adultos que influenciam, mas vamos focar no que a natureza nos permite manejar. Na infância, estamos estreando no mundo. Tudo é novidade e cada experiência forma uma memória importante, o que nos leva a alargar a percepção do tempo. Mas na medida em que os anos avançam, o mundo se torna mais conhecido e cheio de demandas, então vamos criando rotinas para dar conta delas.
As rotinas são ótimas para coisas que a gente pode automatizar. Imagine se você tivesse que ficar pensando em tudo o que precisa apertar ou pisar a cada vez que dirige. Seria quase inviável. O problema é que nós andamos tão atoladas em demandas que deixamos o piloto automático guiar a vida. A consequência é que todos os dias acabam sendo parecidos, sem eventos que fiquem marcados. Assim, nossa percepção sobre a passagem do tempo encolhe. Ele começa a voar.
Percebemos o tempo não pelo calendário, mas pela quantidade de memórias que guardamos dele – especialmente se forem ricas e emocionantes. Mas você vai me dizer que as 24 horas de um dia são escassas para viver experiências eletrizantes além de trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, da saúde e de tudo mais. Eu concordo, mas trago uma boa notícia: introduzir pequenas mudanças na rotina já faz diferença. Puxar conversa com um estranho, almoçar num lugar diferente, ler sobre um assunto inusitado, começar um hobby. Voltar a ser uma estreante.
Outro método é colocar mais presença em suas atividades diárias. Em vez de executar tudo mecanicamente enquanto pensa no que ainda precisa resolver, você pode prestar mais atenção no que está ao seu redor e colocar os sentidos para trabalhar. Perceber o que há em volta, sons, cheiros, texturas, gostos – o que está sempre ali, mas passa batido enquanto você corre.
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Tudo isso é comprovado por pesquisas recentes, mas é algo que a humanidade sabe há muito tempo. Os antigos gregos até criaram dois deuses diferentes para representar o tempo: Chronos, o do relógio, e Kairós, o do momento adequado. Quando a gente chega na maturidade, é hora de mudar o deus que reverenciamos. A vida não é curta: nós a percebemos assim quando não desfrutamos dela.
Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
