Estava andando em uma rua do centro da cidade quando um sujeito passou de bicicleta e me chamou de “gostosa”. Achei ofensivo, pois ninguém tem o direito de falar tal coisa a uma mulher que não lhe tenha autorizado. Mas também achei engraçado porque, há alguns anos, manifestações como essa passaram a se restringir aos limites da minha casa. Da porta para fora, me tornei invisível.
Hoje falo com bom humor, mas essa constatação já me fez sofrer. Parece que foi de um dia para o outro, por volta dos 40 e poucos anos, que deixei de chamar a atenção. Ninguém mais tentava flertar comigo. De repente, comecei a passar despercebida em lugares onde, antes, era notada. Como se a sonhada “capa da invisibilidade” da Sheila, personagem da Caverna do Dragão, tivesse se tornado realidade.
Não era por ser deslumbrante que, há alguns anos, eu atraía olhares – mas por ser jovem, o que nossa sociedade considera pré-requisito para atribuir valor a uma mulher. Ou seja: você é jovem – logo, é desejada – portanto, tem valor.
Como consequência, na medida em que o tempo passa e vamos “desaparecendo” aos olhares externos, temos a impressão de estar perdendo também a relevância. Em uma cultura de aparências, fugir dos padrões é quase como ser riscada do mapa. E a juventude é um dos padrões mais cultuados.
A sucessão dos anos, no entanto, operou outra “mágica” em mim. Em vez de continuar sofrendo pela visibilidade perdida, resolvi transformá-la em liberdade. Afinal, se não sou mais observada, tenho a permissão de me despreocupar com as expectativas alheias. Será que não posso trocar a maquiagem apenas por filtro solar se estiver a fim? E qual o problema de ir ao shopping de chinelos quando quero conforto? A invisibilidade virou superpoder.
Mas não é uma “conversão automática” e muitas mulheres, além da tristeza, sentem vergonha ao se depararem com uma dor considerada superficial. Sofrimento multiplicado e reforçado por certos discursos de “empoderamento”. Tem um vídeo da atriz Julianne Moore em que ela diz não ter passado por essa experiência e reforça que as mulheres que se sentem invisíveis na maturidade estão se colocando no lugar de objetos, não de sujeitos.
É uma fala que machuca ainda mais, por um motivo: não somos nós, individualmente, que nos colocamos nessa posição – há um contexto social que nos condiciona. Se não tivermos isso em mente, acabaremos com mais culpa sobre as costas e criaremos uma separação entre as “evoluídas” (que não ligam para a impressão que causam) e as que ainda estariam longe de sua “melhor versão” (e por isso se incomodam).
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Até hoje, ouvi uma única mulher (além da Julianne) dizer que não sofreu com isso. Acho maravilhoso e desejo o mesmo a todas nós. Mas sentir-se mal com essa aparente perda de relevância é natural e não torna ninguém fútil. Acolher e compartilhar esse sentimento é uma forma de lidar com a pressão e entender que estamos todas no mesmo barco.
Envelhecer não é fácil, a gente lida com muitas perdas, então, vale ter cuidado para que discursos vazios não nos puxem para baixo – e atrapalhem o caminho até a liberdade.
Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
