Já reparou que é mais fácil identificar qualidades nos outros do que em nós? E mesmo quando as outras pessoas nos elogiam por nossos predicados, ficamos cheias de dedos para aceitar, pensando (e até respondendo) que “nem é tanto assim”. Foi o que fiz durante metade da minha vida, até que a maturidade me ensinou que eu poderia ser mais feliz se celebrasse meus pontos fortes. Um episódio recente deixou isso claro.
Em outubro do ano passado, participei de um workshop na Modern Elder Academy, a primeira “escola de envelhecimento” do mundo. Passei cinco dias em imersão, no deserto de Santa Fe, com a escritora Liz Gilbert (de quem sou fã), a ativista Tererai Trent e outras 49 pessoas da minha faixa etária para cima. Logo no primeiro encontro, constatamos que eu era a única estrangeira do grupo. A única que não falava inglês como língua nativa. E estava sozinha. Foram motivos suficientes para Liz (ou Lizzie, como passamos a chamá-la na maior intimidade) enaltecer o quanto eu era corajosa.
E ela não fez isso só uma vez. Repetiu no meio de todos e apenas para mim, enquanto fazíamos uma caminhada de braços dados pelo campus. Escreveu na dedicatória do livro que levei para que autografasse. Mas quando ela comentou que “jamais queria ter cabelos novamente”, pensei: “corajosa é ela, que raspa os cabelos”.
E seguimos assim até que, depois do café da manhã de despedida em que estávamos sentadas lado a lado, ela levantou para ir embora, me deu um beijo na cabeça e disse: “vou repetir mais uma vez: você é muito corajosa”. Era a mesma cabeça que, cinco meses depois, eu tive a coragem de raspar antes que meus cabelos caíssem por causa da quimioterapia. Sem medo ou sofrimento – minha careca foi previamente abençoada por Lizzie.
Felizmente, ninguém precisa passar por uma quimioterapia para se descobrir corajosa e cheia de qualidades. Eu tenho convicção de que a maturidade impulsiona esse processo. É a fase em que até as mudanças hormonais nos estimulam a mudar o foco: em vez de apenas os outros, nós mesmas.
Com isso, a gente consegue se olhar com mais cuidado e autocompaixão, identificando as belezas que carregamos. Junto com elas, é claro, aparecem algumas características menos “populares”, mas que também podem revelar interesses e talentos deixados de lado. É o tempo da originalidade.
No entanto, essa mudança de perspectiva não vai acontecer se você permanecer parada no mesmo lugar. Para investigar as nossas qualidades, precisamos nos colocar em movimento. Não me refiro a viajar para o deserto (embora também seja uma possibilidade), mas a escapar do piloto automático e buscar novas aventuras. Elas podem ser bem pequenas, mas precisam ser motivadas por uma curiosidade, uma indagação, um estranhamento.
Daí você vai caminhando, descobrindo novas paisagens (externas e internas) e encontrando pessoas que vão lembrá-la de como é especial – e, quem sabe, até abençoá-la. Aceite a maturidade como um elogio e agradeça chupando da vida até o caroço.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.
