Adriana Haas

Entre hormônios e desejos: as novas linguagens da maturidade

Adriana Haas incentiva mulheres maduras a olharem para a sexualidade sob uma nova perspectiva

A mente e as emoções acompanham as transformações na maturidade
A mente e as emoções acompanham as transformações na maturidade Foto : Freepik

“Só não quero perder a vontade de transar". Foi a frase que “lacrou” no chat de um bate-papo virtual do qual participei. Enquanto os homens filosofavam em voz alta sobre o envelhecimento, que era o tema do encontro, uma das mulheres mandou por escrito esse comentário sem meias palavras – afinal, é uma preocupação bem concreta para nós, uma vez que as alterações hormonais que precedem a menopausa são famosas por provocarem, entre outras coisas, a queda na libido.

Mas será que a menopausa merece essa fama? De fato, a transição hormonal pode ocasionar mudanças físicas como a redução na lubrificação e a perda da elasticidade no tecido do canal vaginal, causando dor ou desconforto no ato sexual. Nessa situação, é natural que a mulher perca a vontade de transar – mas a boa notícia é que há várias alternativas para solucionar esses problemas.

O buraco, no entanto, pode estar mais embaixo. Ainda que não tenham essas queixas físicas, muitas mulheres procuram uma explicação hormonal para sua libido em queda livre – sem considerar que as transformações dessa etapa da vida não se resumem aos resultados de um exame de sangue. Não temos apenas um corpo que está mudando: a mente e as emoções acompanham a dança.

E diante desse conjunto em metamorfose, nossas relações são colocadas em xeque. Será que, como um todo, elas ainda satisfazem a ponto de despertar nosso desejo ou precisariam de ajustes? Seriam esses ajustes possíveis no contexto da relação? Passamos a nos demorar nas perguntas que evitávamos na juventude, quando a configuração dos hormônios sexuais nos levava a “deixar para lá” os incômodos. Agora não estamos mais dispostas a isso.

O que acontece entre os lençóis também merece ser reavaliado. Em geral, o que entendemos como um desempenho sexual bacana é baseado no que vemos na televisão e no cinema. São encontros sexuais sempre parecidos, focados na satisfação masculina, que tentamos copiar para garantir uma boa performance.

Mas quando chegamos na maturidade, podemos investigar alternativas que tenham mais a ver com nossos corpos e subjetividades – e não com um modelo. Se temos um corpo com novidades, nada melhor do que entendê-las para aprimorar o prazer (que pode estar em outros toques, cheiros, ritmos, possibilidades). Pensa num trabalhinho gratificante…

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E ainda tem outra coisa: muitas mulheres maduras compreendem que sua libido vai além do encontro sexual e pode ser convertida em criatividade, curiosidade e vitalidade que apimentam outras áreas da vida. Não me refiro a “trocar” o sexo pelo fogo de viver, mas de implementar um ciclo em que um abastece o outro, aumentando o deleite em ambos. É tanta energia que acaba transbordando e não pode mais ser contida.

Mas conter para quê?


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.