Adriana Haas

Enterrar a meia-idade é pouco

Adriana Haas analisa como a campanha Ação em Nova York aponta novas narrativas para mulheres maduras, em meio ao etarismo persistente

Mulheres reinventam a rotina e criam novas referências de autonomia e longevidade ativa
Mulheres reinventam a rotina e criam novas referências de autonomia e longevidade ativa Foto : Magnific / Divulgação / CP

Um caixão exposto no Grand Central Terminal, a maior estação de metrô de Nova York, por onde passam 750 mil passageiros por dia. Foi assim que uma empresa americana de saúde e longevidade quis marcar o "enterro da meia-idade" – ou, melhor dizendo, dos rótulos associados a essa fase da vida. A campanha "Death to Midlife", que teve até cerimônia fúnebre conduzida pela comediante Whitney Cummings, entre outras ações, foi criativa e muito bem executada. Mas o que ela nos mostra?

Em primeiro lugar, que a linguagem importa. Uma pesquisa feita pela própria empresa mostrou que 84% dos adultos entre 35 e 65 anos acreditam que os termos negativos ligados ao envelhecimento moldam as expectativas sobre essa fase – mesmo quando contradizem a experiência real de quem a vive. “Crise dos 40”, “ladeira abaixo”, “passada do prazo” são expressões que não têm nada de inocentes. Elas constroem uma narrativa de declínio que precede a experiência e, muitas vezes, a determina. Nesse sentido, enterrá-las simbolicamente faz sentido.

Mas há um problema adicional: o etarismo não mora no vocabulário, especialmente para as mulheres. Mora no mercado de trabalho, que descarta profissionais experientes como se estivessem ultrapassadas. Mora na medicina, que historicamente tratou (e, muitas vezes, continua tratando) o envelhecimento feminino como patologia a ser corrigida. Mora na pressão estética que, paradoxalmente, só aumenta com a idade – como se o corpo que envelhece fosse uma falha moral a ser disfarçada. Mora na invisibilidade social, essa sensação de que, a partir de certa idade, as mulheres deixam de ser vistas.

Trocar a palavra não muda nada disso – e muito menos enterra o assunto. Reconhecer o etarismo onde ele de fato opera é necessário, mas também insuficiente. O que me parece urgente é o passo seguinte: criar novas referências para essa etapa da vida. E esse é um trabalho que nenhuma campanha publicitária fará por nós.

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As mulheres maduras de hoje estão, literalmente, inventando uma nova meia-idade. Com o aumento da longevidade, essa etapa se estendeu de tal forma que passou a ser um período longo, denso e sem precedentes, para o qual não existem mapas, modelos ou ancestrais que já tenham passado por ali nas mesmas condições. As nossas mães e avós envelheceram de outro jeito, em outro corpo social, com outras expectativas. Nós chegamos aos 50, 60 anos e além com saúde, autonomia, desejos e perguntas que as gerações anteriores não tiveram tempo ou permissão de fazer.

Estamos construindo o caminho enquanto caminhamos.

É um privilégio imenso e uma responsabilidade igualmente grande. Porque o que fizermos com essa fase, como a vivermos e o que dissermos sobre ela vai formar as referências que as próximas gerações terão. Não precisamos apenas de um novo nome para substituir “meia-idade”. Precisamos de novas histórias, contadas por quem está dentro delas.

O caixão no Grand Central pode ser um bom começo de conversa, mas o trabalho real é nosso.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.