Ela esperou o fim da roda de conversa que eu conduzia para me abordar, na hora do cafezinho. Não queria fazer perguntas, mas sim um desabafo: "Envelhecer é solitário." Eu concordei e seguimos falando sobre isso pelos poucos minutos de que dispúnhamos. Não queria deixá-la, mais uma vez, sentindo-se só.
Aquela mulher não falava de solidão no sentido convencional. Tinha marido, filhos, amigas de longa data. O que faltava não era presença, mas companhia de experiência; alguém que estivesse passando, ao mesmo tempo, pelas mesmas mudanças no corpo, na identidade, nos papéis – e que falasse sobre isso sem mudar de assunto logo depois. Sentir-se solitária, nesse sentido, é perceber que o que você está vivendo não encontra eco em ninguém ao redor. É possível estar completamente rodeada e carregar isso em silêncio.
E muitas mulheres maduras carregam. Não porque escondam deliberadamente, mas porque aprenderam que certas coisas não precisam (e nem devem) ser compartilhadas. Que sentir o corpo mudar e estranhar o próprio rosto no espelho é algo que se resolve na surdina. A geração de mulheres que hoje tem entre 40 e 60 anos foi treinada para minimizar o que sente e aguentar tudo sozinhas – especialmente quando o que sente não tem nome claro nem solução imediata.
Há também a questão da inexistência de um rito de passagem. A sociedade construiu rituais para quase todas as transições da vida: temos celebrações para o nascimento, a formatura, o casamento, a maternidade, a aposentadoria, até para a morte. Entretanto, não existe cerimônia para o momento em que uma mulher percebe que está se tornando outra, que a fase que se inicia não tem mais o mesmo mapa que as anteriores. Nenhum ritual marca essa passagem. Nenhum espaço foi criado, coletivamente, para processá-la enquanto ela acontece. A maioria das mulheres chega lá navegando no escuro. E o escuro, quando se navega sozinha, parece maior do que é.
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Para tornar essa solidão ainda mais aguda, a mulher que se sente incompreendida nessa fase costuma atribuir isso a faltas individuais – escolhas que não fez, vínculos que não cultivou, uma incapacidade sua de se adaptar. Ela raramente consegue nomear o que de fato está acontecendo: que está atravessando uma experiência para a qual a cultura não ofereceu linguagem ou companhia.
Nomear e compartilhar com outras mulheres o que atravessamos nessa etapa não resolve todos os problemas, mas diminui o isolamento em torno do envelhecimento. A experiência continua sendo desafiadora, o corpo segue mudando, os papéis continuam se reorganizando. Mas deixa de ser algo que se carrega em silêncio, como se fosse particular demais para ser dito ou excessivamente banal para merecer atenção.
Não é particular nem banal. É uma das transições mais significativas da vida de uma mulher – e merece espaço, linguagem e, acima de tudo, companhia. Não a companhia de quem está apenas ao lado, mas a de quem está no mesmo lugar.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
