Todo grupo tem as mais falantes e as mais silenciosas. Ela era uma das quietinhas, parecia tímida – até que, na formatura da pós-graduação, apresentou uma performance artística que ninguém esperava. Devia ter feito a família comer algumas dúzias de ovos para reunir o material que utilizou: um balde de cascas representando as camadas que precisamos abandonar na segunda metade da vida. Derramou sobre si os pedaços de cascas, abençoando sua versão madura, enquanto dançava e encenava movimentos de liberdade que muitas de nós ousamos apenas imaginar – ou nem isso.
Assim como ela, muitas mulheres chegam à maturidade com o desejo de mudar algumas peles. Deixamos de caber em papéis sociais desempenhados na juventude, que precisam ser reavaliados e, com frequência, renovados ou abandonados. É mais ou menos como fazem as cobras, que trocam de pele quando cresceram tanto que a antiga não serve mais: precisam de uma versão maior para voltarem a se sentir confortáveis em seus próprios corpos.
As cascas representam as versões de nós que foram sendo cuidadosamente construídas para caber: a filha que não faz alarde, a aluna que cumpre expectativas, a profissional sempre disponível, a mulher que silencia para “manter a harmonia”. São camadas de contenção que, acumuladas ao longo dos anos, passam a pesar mais do que proteger. Ao se despir delas em público, minha colega não negava quem foi; apenas mostrava que não queria mais se esconder sob essas coberturas, mas deixá-las para trás para descobrir vernizes mais autênticos.
- Rir da menopausa custa caro
- Amizade é, sobretudo, questão de tempo
- Florescer na maturidade rende os melhores frutos
No entanto, para sair das cascas que nos prendem em padrões antigos e limitadores, precisamos quebrar certos ovos – em geral, aqueles com os quais sempre tomamos o maior cuidado por representarem papéis femininos aprendidos muito cedo. Ovos como a crença de que somos naturalmente responsáveis pelo cuidado de tudo e de todos; de que ser forte é não precisar de apoio; de que dar conta sozinha é sinal de valor; de que é normal não sobrar nada de nosso tempo para nós mesmas; de que sustentar o equilíbrio dos ambientes (da casa, do trabalho, das relações) é tarefa nossa, mesmo quando isso exige exaustão ou renúncia. São ovos em que aprendemos a não pisar ainda jovens, porque deles parecia depender a retribuição do mundo em termos de amor e reconhecimento. Na maturidade, entretanto, protegê-los intactos passa a exigir um preço alto demais: o da própria liberdade. Chega, então, a hora de perder o medo e permitir que se quebrem.
Mas essa passagem não significa abandono total. A colega que me inspirou a escrever esse texto guardou parte das cascas utilizadas na apresentação para fazer uma obra de arte, que ainda não sabe qual será. Assim é a vida: partes do que deixamos para trás seguem conosco para ganhar novos significados e ajudar a escrever os próximos capítulos de nossas narrativas. Somos histórias feitas de camadas, que vão se sobrepondo quando precisamos nos construir e se dissolvendo mais adiante, para serem refeitas de outros jeitos. É nesse processo que podemos fazer da vida a nossa maior obra de arte – ainda que, hoje, não saibamos como será.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
