Tem uma coisa fascinante acontecendo no Rio de Janeiro. Palmeiras que foram plantadas há quase setenta anos pelo paisagista Roberto Burle Marx estão florescendo. Mas não é um florescimento sazonal, como o da rosa ou da lavanda, que se repetem ano após ano. Essas palmeiras, conhecidas como “talipot”, estão florescendo pela primeira e única vez - depois de décadas de crescimento invisível aos olhos mais apressados. O que elas carregaram em silêncio por tanto tempo agora se revela de uma maneira espetacular e profundamente simbólica.
Depois desse florescimento singular em que produzem milhões de frutos de uma única vez, as talipot começam a se preparar para morrer. Alguns poderiam dizer que é a parte triste da história, mas eu discordo. A morte faz parte do ciclo de tudo o que vive: plantas, animais e seres humanos. Não é trágico; é natural. Triste mesmo é chegar ao fim sem nunca ter florescido - seja para as palmeiras ou para nós.
O destino das talipot nos entristece porque vivemos em uma sociedade que valoriza apenas o que desabrocha cedo: as crianças-prodígio, os que fizeram seu primeiro milhão antes dos 30, as carreiras meteóricas, as vidas que parecem “dar certo” num estalar de dedos. A narrativa dominante é a da juventude como o único território da criação. Mas a maturidade, que não é ansiosa e nem apressada, pode ser o melhor momento para florescer.
Nosso amadurecimento não é como o das árvores. Enquanto as talipot permanecem no mesmo lugar por décadas, testemunhando o progresso urbano de forma impassível, nós corremos sem parar ao longo de nossas jornadas. E chegamos na maturidade exaustas. Cansadas de dar conta de tudo, de atender as necessidades de todo mundo, de estarmos sempre disponíveis. De, tantas vezes, termos apenas testemunhado o desenrolar de nossas vidas. Mas chegamos também cheias de experiências, cicatrizes e histórias para contar – um solo fértil para crescer com toda a potência.
O problema é que a gente ainda acredita na história de que nosso tempo de florir já passou. Por causa disso, algumas de nós carregam ressentimentos, um veneno que impede o surgimento das flores tardias. Só que há uma força natural que aparece depois dos 40, 50, 60 - que não é ruidosa, mas podemos perceber (ironicamente) quando reclamamos de não ter a mesma energia para continuar correndo como loucas. Quando as mudanças, dentro e fora de nós, são ao mesmo tempo um desafio e um convite a brilhar de outro jeito.
O florescimento da maturidade pode ser ainda melhor do que o desabrochar precoce, que acontece quando estamos preocupadas demais com a aprovação alheia. As mulheres maduras já se conhecem, sabem o que lhes serve e o que não serve – e podem, assim, florescer com intencionalidade e gerar milhões de frutos (ou apenas alguns deles, dos mais suculentos). Só precisamos descobrir qual é a nossa espécie e honrar o ciclo natural de nossa evolução.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.