Adriana Haas

Florescer na maturidade rende os melhores frutos

Adriana Haas reflete sobre o florescer tardio e a força que surge na maturidade, inspirada pelo ciclo único das palmeiras talipot no Rio de Janeiro

Palmeiras talipot florescem apenas uma vez na vida, após décadas de crescimento silencioso
Palmeiras talipot florescem apenas uma vez na vida, após décadas de crescimento silencioso Foto : Fernando Frazão /Agência Brasil / CP

Tem uma coisa fascinante acontecendo no Rio de Janeiro. Palmeiras que foram plantadas há quase setenta anos pelo paisagista Roberto Burle Marx estão florescendo. Mas não é um florescimento sazonal, como o da rosa ou da lavanda, que se repetem ano após ano. Essas palmeiras, conhecidas como “talipot”, estão florescendo pela primeira e única vez - depois de décadas de crescimento invisível aos olhos mais apressados. O que elas carregaram em silêncio por tanto tempo agora se revela de uma maneira espetacular e profundamente simbólica.
Depois desse florescimento singular em que produzem milhões de frutos de uma única vez, as talipot começam a se preparar para morrer. Alguns poderiam dizer que é a parte triste da história, mas eu discordo. A morte faz parte do ciclo de tudo o que vive: plantas, animais e seres humanos. Não é trágico; é natural. Triste mesmo é chegar ao fim sem nunca ter florescido - seja para as palmeiras ou para nós.
O destino das talipot nos entristece porque vivemos em uma sociedade que valoriza apenas o que desabrocha cedo: as crianças-prodígio, os que fizeram seu primeiro milhão antes dos 30, as carreiras meteóricas, as vidas que parecem “dar certo” num estalar de dedos. A narrativa dominante é a da juventude como o único território da criação. Mas a maturidade, que não é ansiosa e nem apressada, pode ser o melhor momento para florescer.
Nosso amadurecimento não é como o das árvores. Enquanto as talipot permanecem no mesmo lugar por décadas, testemunhando o progresso urbano de forma impassível, nós corremos sem parar ao longo de nossas jornadas. E chegamos na maturidade exaustas. Cansadas de dar conta de tudo, de atender as necessidades de todo mundo, de estarmos sempre disponíveis. De, tantas vezes, termos apenas testemunhado o desenrolar de nossas vidas. Mas chegamos também cheias de experiências, cicatrizes e histórias para contar – um solo fértil para crescer com toda a potência.
O problema é que a gente ainda acredita na história de que nosso tempo de florir já passou. Por causa disso, algumas de nós carregam ressentimentos, um veneno que impede o surgimento das flores tardias. Só que há uma força natural que aparece depois dos 40, 50, 60 - que não é ruidosa, mas podemos perceber (ironicamente) quando reclamamos de não ter a mesma energia para continuar correndo como loucas. Quando as mudanças, dentro e fora de nós, são ao mesmo tempo um desafio e um convite a brilhar de outro jeito.
O florescimento da maturidade pode ser ainda melhor do que o desabrochar precoce, que acontece quando estamos preocupadas demais com a aprovação alheia. As mulheres maduras já se conhecem, sabem o que lhes serve e o que não serve – e podem, assim, florescer com intencionalidade e gerar milhões de frutos (ou apenas alguns deles, dos mais suculentos). Só precisamos descobrir qual é a nossa espécie e honrar o ciclo natural de nossa evolução.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.

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