Adriana Haas

A maturidade pode ser solo fértil

Adriana Haas questiona a “monocultura da existência” imposta às mulheres e defende o amadurecer como um período de descobertas e reconexão

A maturidade é o momento do solo fértil, em que a mulher pode escolher quais sementes deseja cultivar
A maturidade é o momento do solo fértil, em que a mulher pode escolher quais sementes deseja cultivar Foto : Unsplash / CP

Você já deve ter passado por uma plantação como milho, trigo ou soja. Elas costumam ser enormes e, depois da colheita, a mesma espécie é plantada novamente, para recomeçar o ciclo. É uma prática favorável aos interesses econômicos, mas que acaba reduzindo a biodiversidade, empobrecendo o solo e tornando a paisagem monótona.

Agora imagine esse método aplicado à sua vida. Ano após ano, os mesmos projetos cultivados. Quando vingam, eles resultam na mesma planta adulta, que será colhida e replantada, em um ciclo no qual a vida perde profundidade. É um tipo de “monocultura da existência”, em que a riqueza da diversidade é substituída pelo que interessa ao sistema vigente.

No caso das mulheres, a quem são permitidos poucos modelos de beleza, sucesso e amor, essa monocultura não é apenas econômica, embora também seja – afinal, mulheres entristecidas e insatisfeitas com seus corpos são levadas a gastar dinheiro tentando “consertar” a si mesmas.

A monocultura, nesse sentido, é simbólica e muito poderosa. Somos ensinadas a sentir e a nos comportar dentro de limites aceitáveis, sendo dóceis, preocupadas com os desejos alheios, sempre dispostas a doar muito de nós, cheias de culpa que nos impedem de dizer “não” e com um eterno sentimento de insuficiência. Afetos “fora da cerca”, como raiva, tédio, sensualidade madura e solidão fértil são vistos como ervas daninhas.

O mesmo ocorre com o imaginário sobre envelhecer, em que apenas alguns roteiros são permitidos: a mulher que “se cuida”, “não aparenta” e respeita os códigos de comportamento e aparência “adequados”. Até mesmo a ousadia tem limites bem estabelecidos para quem tem “certa idade”. Chegamos na maturidade como terrenos domesticados em vez de florestas cheias de texturas e mistérios.

Ainda assim, nenhuma terra é irrecuperável. Podemos aproveitar a experiência como mulheres maduras para reflorestar nosso imaginário, plantando imagens mais interessantes sobre quem podemos ser. É hora de cultivar narrativas onde o envelhecer não é sinônimo de perda, mas de expansão. Um convite a recontar nossas histórias e permitir que os afetos reprimidos voltem a circular – como água subterrânea que alimenta as raízes.

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A maturidade é o momento do solo fértil, em que a mulher pode escolher quais sementes deseja cultivar. Depois de décadas vivendo sob a monocultura do “dever ser”, temos a chance de abrir clareiras e permitir o crescimento de outras espécies – desejos sufocados ou recém-descobertos, paixões tardias, saberes esquecidos. Um processo de reconexão com o selvagem interno, com o múltiplo, o instintivo.

Esse reflorestamento exige tempo e paciência, mas pode começar com a abertura para novas perspectivas através de uma conversa, um encontro, um livro, um filme, uma viagem, um curso, um “deixa eu ver o que é isso aqui”. São pequenas sementes que, bem cuidadas, podem germinar como maneiras mais leves e bonitas de florescer na maturidade.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.