O Dia Internacional da Menopausa foi comemorado no último sábado, 18. Quero dizer, “comemorado” não costuma ser o verbo mais comum quando se fala de menopausa – uma vez que as associações mais corriqueiras são de desconfortos de todo tipo. Todo tipo mesmo: a lista de sintomas chega a 48. Mas você lembra que, até uns anos atrás, só se falava sobre um ou dois deles (em especial, os fogachos)?
Essa lista começou a aumentar nos anos 1990, acompanhando mudanças na forma como a ciência passou a registrar a experiência subjetiva das mulheres. Antes de 1960, a menopausa era vista apenas como “falência dos ovários”, que causava ondas de calor, suores noturnos e irregularidade menstrual. Ponto. Desde lá, os olhares médicos (e os sintomas) foram se ampliando: entraram alguns como insônia, irritabilidade, depressão, perda de memória e, mais recentemente, outros como formigamento, palpitações, zumbidos e coceira.
Mas onde você estava enquanto isso tudo acontecia? Pensando em qualquer outra coisa que não envelhecer. Em uma sociedade etarista como a nossa, na qual a velhice é considerada feia e improdutiva, não pensamos nela enquanto for possível evitar. Além do mais, você tinha muito a fazer: estudar, trabalhar, formar uma família, ganhar dinheiro, ser promovida, conhecer o mundo. Envelhecer e “menopausar” eram a parte desagradável do futuro, então melhor deixar para quando fosse inevitável.
E agora que está acontecendo, você tem 48 possíveis sintomas para enfrentar. O que já era ruim ficou pior. E como a menopausa, descobriu-se também, é um fenômeno biocultural, as nossas expectativas sobre ela influenciam a forma como vivenciamos seus efeitos físicos. Ou seja: se você ficar pessimista sabendo sobre todos esses sintomas possíveis, eles podem se intensificar. Será que há motivos para comemorar?
Pois esses olhares cada vez mais ampliados sobre a menopausa garantem que sim. Profissionais de diferentes áreas vêm estudando a transição hormonal sob perspectivas que buscam não apenas “resolver problemas”, mas criar possibilidades – o que um número cada vez maior de mulheres vem comprovando na prática, ao “temperar” esse período desafiador com liberdade e autonomia. A pergunta passou de ”como tratar esse sintoma para que a vida continue igual” a “como cuidar dessa mulher para que a vida seja melhor”.
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E os relatos de famosas e anônimas que inundaram a internet foram animadores. Mesmo com todas as perdas com as quais precisamos lidar ao envelhecer, essas mulheres estão se descobrindo mais corajosas e ousando desafiar regras sociais e opiniões alheias para ir ao encontro de seus desejos. Temos muito a comemorar, sim – e considerando que passaremos, em média, um terço de nossas vidas na menopausa, por um bom tempo.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
