Adriana Haas

A maturidade é a fase da soberania

Adriana Haas defende a importância de proteger os próprios territórios e, ao mesmo tempo, permitir que as águas sigam novos rumos

A independência é a afirmação dos limites e a capacidade de dizer “não” quando preciso
A independência é a afirmação dos limites e a capacidade de dizer “não” quando preciso Foto : Freepik

Sua independência não precisa ter data cívica, como a do país, mas merece ser comemorada. Pense em si mesma como um território, com fronteiras claramente demarcadas e bem guardadas. Você é sua própria polícia de imigração, que avalia com critério quem (e o que) pode atravessá-las – sem receio de negar a entrada de visitas mal-intencionadas. A independência é a afirmação dos limites, a capacidade de dizer “não” quando preciso.

Mas sua liberdade também merece celebração. Ela não dispensa os contornos, que aqui são mais permeáveis – não aos outros mas a si mesma. Pense em um rio que percorre aquele território, cruzando fronteiras com o exterior, permitindo-se aumentar de volume pela água de outros rios até alcançar o mar. Ele vai mudando seu curso ao longo dos anos, erodindo as margens que o limitam até adquirir novas formas. A liberdade está relacionada aos seus valores e à maneira como os coloca em prática para expressar quem é.

A independência diz respeito à autonomia em relação aos outros. Quando chegamos à maturidade, é comum que os nossos limites venham sendo desrespeitados há muito tempo. Ensinadas a ceder nosso tempo e cuidar dos outros em primeiro lugar, abandonamos as fronteiras e permitimos que fossem tomadas. Mas agora, quando o envelhecimento nos mostra na pele que não temos mais a vida inteira pela frente, é hora de fincar bandeira e não mais permitir que os limites sejam ultrapassados – para que, finalmente, tenhamos energia a dedicar aos nossos desejos.

A liberdade é a autonomia em relação a si mesma. É entender que nada é definitivo, nem mesmo o que uma vez nos definiu. Regras e crenças que fomos construindo ao longo da vida podem ser atualizadas se não forem mais produtivas para a vida que desejamos na maturidade, uma fase aberta a reestreias e novos papéis. É o direito de mudar de opinião, de se reimaginar, de alterar o curso para desaguar em lugares diferentes.

Veja Também

Na maturidade, é preciso proteger nossos territórios e, ao mesmo tempo, permitir que nossas águas mudem o rumo. Independência e liberdade se complementam. A independência nos dá contorno, a liberdade nos dá movimento. Uma nos protege, a outra nos expande. Sem limites, a liberdade se dispersa; sem liberdade, a independência endurece.

O que deve vir primeiro? Eu diria que um rio corre com mais facilidade em territórios bem estabelecidos – portanto, a independência introduziria a liberdade. No entanto, cada mapa é único e, talvez, a ordem dos fatores não altere tanto o resultado. Elas podem até ir se consolidando ao mesmo tempo, por meio de pequenas coragens e ousadias cotidianas que, alimentadas, vão crescer até que sua soberania seja incontestável.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.