Vamos assumir que dar suporte emocional para parceiros e outros homens de nossas vidas é exaustivo? Talvez você não tenha pensado nisso, mas certamente já sentiu. Pois saiba que há quem estude o assunto a sério – e essa dinâmica foi até batizada. O termo “mankeeping” (ainda sem tradução para o português) define a carga emocional e social que mulheres, principalmente em relacionamentos heterossexuais, acabam assumindo para suprir a carência de apoio entre os homens. Isso inclui as mais variadas atividades, como organizar a agenda social do parceiro, comprar presentes de aniversário para os amigos dele ou ser o principal apoio emocional – o que, em geral, fazemos sem receber o mesmo em troca.
Isso ocorre porque as redes sociais masculinas diminuíram nas últimas décadas, segundo pesquisadores – fenômeno apelidado de “recessão da amizade masculina”. As normas rígidas associadas à masculinidade, que desencorajam a vulnerabilidade e as trocas afetivas, contribuem para que muitos homens não desenvolvam laços de apoio emocional entre si e acabem dependendo das parceiras para isso. A dificuldade dos homens em se abrirem com amigos faz com que as mulheres se tornem “terapeutas não pagas”.
Essa dinâmica gera sobrecarga emocional para as mulheres, resultando em esgotamento, frustração e perda de espaço para suas próprias necessidades. Para as mulheres maduras, que em geral vêm por décadas desempenhando esse papel, o peso se torna ainda maior. A exaustão emocional, somada à ausência de reciprocidade nos vínculos afetivos, pode minar a saúde mental e agravar sintomas comuns da transição hormonal da menopausa, como ansiedade, irritabilidade e insônia (cujas causas são multifatoriais).
Além disso, muitas mulheres veem na maturidade uma oportunidade de redescoberta, depois de criar os filhos e alcançar certa estabilidade. No entanto, se elas estiverem centradas nas necessidades emocionais do parceiro, sua própria busca por sentido e prazer pode ser negligenciada, o que se traduz em projetos pessoais adiados e na permanência em papéis que já não desejam desempenhar.
Para casais que estão envelhecendo juntos, há desafios adicionais provocados pela simultaneidade nas perdas físicas, sociais e profissionais que o passar dos anos traz e que afetam tanto homens quanto mulheres, ainda que de formas distintas. Se, além de cuidar das próprias feridas, a mulher ainda tiver que sanar as do companheiro, não há saúde que dê conta.
Some-se a isso o trabalho doméstico e de cuidado de filhos e idosos e você entenderá por que tantas mulheres maduras se queixam de exaustão. Esse acúmulo não afeta apenas o corpo: ele invade o tempo, o desejo, a imaginação. Chegamos à segunda metade da vida conscientes de que não temos mais todo o tempo do mundo – e para criar o que desejamos desses anos, precisamos de fôlego para imaginar e planejar. É necessário encontrar alternativas a essa sobrecarga, porque não dá para seguir leve quando se carrega a dor de dois.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
