Ela começou a namorar um homem que acabara de conhecer. Conexão imediata, horas de conversa sobre todo tipo de assunto, viagens, química sexual explosiva. Alguns meses depois, veio a proposta: formar um trisal com a ex-mulher, que queria retomar uma relação de quase trinta anos, entre idas e vindas. Se ela voltasse à pessoa que era trinta anos atrás, teria recebido a proposta como ofensa. Naquela época, estava casada, tinha filhos, casa e carro próprios, conforme o figurino – e como tudo parecia certo, aceitou por anos uma relação em que não podia expressar seus desejos e necessidades. Até que se separou.
E hoje ela não é mais a mesma pessoa – tem mais de 50, já viveu o suficiente para mandar o figurino às favas e decidiu aceitar a proposta. “Por que não?”, me disse, com a firmeza de quem faz uma escolha apenas por si. Não está preocupada em agradar o namorado e sabe que, se em algum momento a relação a três deixar de satisfazê-la, pode voltar atrás e reformular o acordo ou sair dele sem olhar para trás. “Aceitar”, agora, só vale para o que deseja experimentar – e não mais para se encaixar nos padrões sociais esperados para “uma mulher de sua idade”.
Mas eu sou a única que sabe da história. Embora tenha muitas amigas, algumas bem próximas, sabe que será julgada (e considerada culpada) pela história que começa a viver. Para uma até tentou contar, mas parou ao primeiro sinal de desaprovação. A ousadia na maturidade nem sempre é bem recebida – mesmo entre quem se quer bem.
- Você ainda não tem idade para isso
- Nem tudo é culpa da menopausa
- Na maturidade, não se contente com menos
No caso dela, o medo da desaprovação não foi barreira para a história que prossegue, mas é para muitas mulheres nessa etapa da vida. Existe uma espécie de consentimento para que as jovens sejam atrevidas (até certo ponto), mas às maduras caberia um lugar de resignação pelas oportunidades que não estão mais autorizadas a experimentar. Depois dos 40, começamos a nos tornar “velhas demais” para inovações – ainda que elas não interfiram na vida de mais ninguém. Acabamos vestindo essa carapuça e cobrando que as outras façam o mesmo.
A questão, no entanto, ultrapassa o receio do julgamento e esbarra na solidão. Minha amiga não precisa da aprovação alheia, mas seria reconfortante se tivesse mais mulheres com quem compartilhar suas dúvidas e descobertas. Não para ouvir conselhos (que só servem a quem os dá), mas para escutar outras perspectivas e, dessa forma, assimilar melhor toda a novidade do que está vivendo.
E se ela pudesse, sem receios ou meias palavras, dividir sua experiência, a onda de liberdade se espalharia como inspiração. Depois que a escutei, fui caminhando leve para casa, como que “autorizada” a qualquer subversão que minha alma deseje. E foi por isso que, antes de partir, peguei sua mão e a beijei, pedindo sua benção de mulher sábia. Nós rimos da brincadeira, mas a liberdade é como um toque mágico e contagioso – e para espalhá-la, a gente só precisa dar as mãos.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
