Adriana Haas

Nem tudo é culpa da menopausa

Adriana Haas reflete sobre como a atualidade intensifica efeitos que não podem ser atribuídos exclusivamente à menopausa

Valores culturais criam estigmas que impactam profundamente as mulheres, principalmente na mturidade
Valores culturais criam estigmas que impactam profundamente as mulheres, principalmente na mturidade Foto : Teona Swift / Pexels

Os sintomas da menopausa estão afetando o desempenho profissional de 79% das mulheres maduras. Foi essa a conclusão de um estudo publicado há poucas semanas na revista Menopause, intitulado “Eu não me reconheço mais”. Segundo a pesquisa, as principais queixas das mulheres na menopausa em relação ao trabalho estão relacionadas aos distúrbios do sono, seguido pelos problemas de memória e concentração, os fogachos, a ansiedade e as alterações de humor. Assustador, não é?

Mas eu proponho que observemos outras camadas desses resultados. Com exceção dos fogachos (que podem causar problemas no sono), os outros efeitos relatados são multifatoriais – portanto, não podem ser atribuídos exclusivamente à menopausa. Será que o excesso de informações que recebemos não está afetando a nossa memória (que é limitada)? E com todas as demandas e estímulos a que estamos expostas, é possível manter a mesma concentração que tínhamos anos atrás? O mundo também mudou nos anos que se passaram desde que éramos jovens.

Remexendo um pouco mais na pesquisa, descobri que ela foi feita nos Estados Unidos, com 1.642 mulheres empregadas em uma grande empresa farmacêutica global. Isso quer dizer que as entrevistadas fazem parte de contextos culturais que não devem ser desprezados na avaliação. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, a juventude é enaltecida como qualidade – e, à medida que envelhecemos, perderíamos junto com ela a beleza, a vitalidade e a agilidade. No mercado de trabalho, é o período em que profissionais experientes são substituídos por outros mais jovens e com remunerações mais baixas. Esses valores culturais criam estigmas que impactam profundamente as mulheres e, por si só, já podem provocar sintomas como estresse e ansiedade.

Não quero dizer que a transição hormonal da menopausa não tenha nada a ver com isso, mas é preciso atribuir a ela apenas o que é dela. Ao jogarmos toda a responsabilidade em suas costas, acabamos reforçando o estigma de que mulheres maduras deixam de ser produtivas (não por coincidência, quando deixam de ser reprodutivas). Esse angu tem muito caroço para ser engolido sem a devida atenção.

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Mas quem sou eu para questionar uma pesquisa que está sendo comentadíssima mundo afora? Sou uma mulher que não apenas estuda o tema, mas está na menopausa, envelhecendo e lidando com todos os apequenamentos aos quais nossa cultura etarista tenta nos submeter. É uma missão difícil quando estamos expostas a todo tipo de informação, a toda hora – muitas delas com o objetivo de nos apavorar, porque mulheres apavoradas ficam mais propensas a comprar. Eu tenho todo o direito, assim como você, de questionar as informações que consumo e de buscar outras que me libertem em vez de me aprisionar em expectativas terríveis sobre a maturidade. É por meio dessa seleção que terei a base para fazer minhas escolhas com autonomia, sem medo da vida que vai acontecer – com mudanças, algumas perdas, mas também muitos ganhos.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.