Adriana Haas

A irritabilidade da menopausa não é só hormonal

Adriana Haas investiga o que está por trás da raiva exacerbada nessa etapa e mostra que a resposta vai além dos hormônios

A progesterona é um ansiolítico natural que, ao cair na perimenopausa, pode tornar intoleráveis situações antes suportadas
A progesterona é um ansiolítico natural que, ao cair na perimenopausa, pode tornar intoleráveis situações antes suportadas Foto : Pexels

Três mensagens de áudio na sequência. Pode ser habitual para algumas pessoas, mas não para a amiga que me mandou. Tinha que ser coisa séria – e era mesmo. Ela contou que saía de uma sequência de dias em que havia sido tomada por uma irritabilidade sem explicação. Nas palavras dela, raiva mesmo. Não estava na TPM e nem via qualquer motivo, mas estava “descontando” em tudo e todos.

Como a irritabilidade é apontada como um dos efeitos do climatério, resolveu me perguntar, já que estudo sobre o assunto – e havia escrito uma coluna sobre a raiva por aqui dias antes.

De fato, a irritabilidade e a raiva costumam se apresentar nesse período da transição hormonal da menopausa. Podemos nos irritar com muitas coisas, incluindo algumas que, antes, não alteravam nosso humor. Isso acontece pela queda do que especialistas chamam de “véu hormonal”, que é sustentado, durante os anos reprodutivos, especialmente pela progesterona, um hormônio que atua como ansiolítico natural, favorecendo a conciliação e inibindo a reatividade.

Isso tem um lado muito positivo, mas também pode ter o seu lado negativo, quando contribui para que as mulheres suportem relações abusivas e contextos insatisfatórios para “manter a harmonia”. Então, quando a produção de progesterona cai a partir da perimenopausa, o que era suportado passa a ser intolerável. O véu cai e a realidade mostra a cara.

A forma como cada mulher reage a isso é individual – assim como toda a transição da menopausa. Vários fatores influenciam, como a química de cada corpo e a história de cada alma. No caso da minha amiga, que traz do passado episódios de violência, a mudança hormonal pode estar movimentando o trauma (embora ela já o tenha tratado por meio de inúmeras terapias). A gente carrega esses traumas em lugares profundos e é preciso muito trabalho para entendê-los e evitar que orientem nossos comportamentos.

Além das trajetórias individuais, precisamos levar em conta também a nossa história coletiva. Vamos combinar que nunca foi fácil ser mulher, desde o tempo em que éramos queimadas na fogueira até agora, quando fazemos parte da “geração sanduíche”, sempre exaustas tentando cuidar de todos e atender demandas que nem sempre são nossas. Há muitos estudos comprovando que traumas são passados de uma geração a outra, deixando feridas que basta um cutucão para serem abertas sem que façamos ideia de onde venham.

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Depois do interminável áudio que enviei como resposta, minha amiga respondeu que tudo isso fazia sentido. Eu não vejo como não faria – não apenas para ela, mas para cada uma de nós. Quase todas carregamos alguma história de abuso e vivemos em contextos que nos sobrecarregam. Até brinquei que, diante disso, sentir raiva quando chegamos na maturidade é quase uma obrigação para quem deseja se libertar dos abusos que impedem uma vida com mais leveza e liberdade. Identificando-os, temos a oportunidade de recusá-los.

Mas, para que isso aconteça, precisamos entender que essa raiva não é apenas “coisa de hormônios” e direcioná-la de forma saudável, transformando-a em um catalisador para as mudanças que desejamos, sem permitir que corroa nossas relações. É tarefa para gente grande – e talvez por isso nos seja apresentada apenas quando somos mulheres maduras.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.