Adriana Haas

Equilibre seus copinhos na maturidade

Adriana Haas convida as mulheres a observarem em que áreas da vida elas estão colocando sua energia

Pessoas maduras geralmente decidem mudar suas prioridades para equilibrar os níveis de seus copinhos
Pessoas maduras geralmente decidem mudar suas prioridades para equilibrar os níveis de seus copinhos Foto : Freepik

“É o trabalho que me completa”. Foi o que escutei de uma mulher à beira de um colapso. Perguntei como estavam as outras áreas de sua vida e ela respondeu que não importava, porque sempre colocou o trabalho como prioridade e isso a havia feito feliz até então. A solução, na perspectiva dela, seria encontrar urgentemente um outro trabalho, capaz de lhe fazer voltar a sorrir. Como se tratava apenas de uma entrevista, não espichei o assunto.

Não é raro nos vermos em situações como essa. Quando jovens, costumamos colocar toda a nossa energia nas áreas da vida em que temos mais aptidões ou que, supomos, nos trarão mais recompensas. Nos trabalhos em grupo que conduzo, eu gosto de materializar essa tendência no “jogo dos copinhos”. Você pega alguns copos, cada um representando uma área, e coloca o tanto de água correspondente à energia que dedica a ela. Vai perceber que um ou dois copinhos enchem até a borda (em geral, o do trabalho e/ou o da família), enquanto os outros (como o do lazer e o do autocuidado) ficam minguando. É uma configuração que pode funcionar por um tempo, mas dificilmente sobrevive à transição da maturidade.

Quando chegamos nela, é comum que ocorram acontecimentos que nos desestabilizam: mudanças profissionais ou na estrutura familiar, abalos nos relacionamentos, problemas de saúde, perda de pessoas próximas, o nosso próprio envelhecimento, a transição hormonal da menopausa. Muitas vezes, eles coincidem com questionamentos que surgem quando percebemos não ter mais todo o tempo do mundo pela frente. Jogue tudo isso em um copo que está pela borda e o resultado será uma inundação – que costuma ser chamada de crise.

É por isso que muitas pessoas maduras decidem mudar suas prioridades para equilibrar os níveis de seus copinhos. Assim, quando uma área da vida apresentar percalços, as outras serão capazes de proporcionar satisfação e tranquilidade para resolver o que for preciso. A essa altura, a gente percebe que não existe uma única “bala de prata” capaz de garantir a prosperidade da vida. Aliás, a gente percebe que a vida não oferece garantia nenhuma – então, diversificar nossas apostas pode ser a melhor alternativa.

Veja Também

Sugiro que você experimente o jogo dos copinhos. Para facilitar, considere apenas quatro: o da saúde (física, mental e espiritual), o do trabalho (remunerado e não remunerado, como as atividades domésticas e de cuidado), o do lazer (o que você faz por prazer, sem competitividade) e o do amor (de todos os tipos, desde que recíproco). Para facilitar ainda mais, nem precisa pegar copos de verdade – basta desenhá-los, com seus níveis (a lápis, para poder modificar enquanto reflete). É um exercício que pode revelar muito.

Eu não soube mais da mulher que parecia se encaminhar a um burnout. Espero que tenha conseguido encontrar outro trabalho para acalmar seu coração e um tempo de paz para repensar suas prioridades – porque os momentos de tempestade sempre chegam (ou retornam) para estremecer nossos copinhos.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.