Adriana Haas

Vamos tomar um chá de raiva?

Adriana Haas reflete sobre a importância de dar voz à raiva e se libertar da culpa que muitas mulheres foram ensinadas a carregar

Libertar a raiva em forma de grito ou lágrima, pode transformá-la em força, energia e motivação
Libertar a raiva em forma de grito ou lágrima, pode transformá-la em força, energia e motivação Foto : David Garrison / Pexels

Estive no acupunturista dias depois da penúltima aplicação da quimioterapia e, como de costume, ele perguntou sobre os efeitos colaterais. Eu os relatei (um pouco de enjoo, constipação, fadiga) e finalizei com “mas não tenho do que reclamar”. Diante de todos os efeitos colaterais possíveis de uma quimioterapia, os meus são poucos e bastante manejáveis. Ele parou com suas agulhas e comentou que, sim, eu podia reclamar – afinal, estou passando por um processo bem duro.

Eu concordei e o assunto frutificou no silêncio dos 22 minutos em que permaneci imóvel, no escuro, com as agulhas espalhadas pelo corpo. No caminho de volta para casa, chorei. Chorei de raiva. Eu já comentei que aceito o fato de ter tido um câncer e precisar tratá-lo. Doenças, assim como problemas de infinitas naturezas, podem acometer qualquer pessoa – e eu não sou um alecrim dourado imune a eles. Mas tenho todo o direito a, quando a coisa aperta, sentir raiva por estar passando por um perrengue desse calibre.

Isso não quer dizer que vou agredir alguém, muito menos a mim mesma, na expressão dessa raiva. Quero apenas libertá-la do meu corpo, em forma de grito ou lágrima, para que se transforme em força e energia que me impulsione a criar algo bonito (como pretendo que esse texto se torne). E não há nada que me impeça de fazer isso ao mesmo tempo em que reconheço ser muito abençoada e ter tanto pelo que agradecer. Uma coisa não invalida a outra.

Mas parece que nós, mulheres, tendemos a extremos em relação à raiva: ou a engolimos (porque é considerada um sentimento inadequado a boas mulheres) ou nos afundamos nela, deixando que vire ressentimento. Pois quero propor uma outra possibilidade, que nos torne mais leves e ajude a manter a saúde emocional. Ela consiste em admitir a raiva para soltá-la sem receios ou vergonhas – de preferência, entre pessoas que não nos julgarão ou dirão “ah, mas você é privilegiada, tem gente muito pior”. Eu sei e agradeço por meus privilégios, mas também quero liberdade para extravasar o que sinto, sem retoques.

Até sugeri a uma amiga que façamos um “bolo com chá de raiva”. Serão colocados à mesa o bolo de cenoura que a esposa dela faz e todas as raivas que tivermos presas no peito, junto com palavrões cabeludos e as lágrimas que serão mais produtivas fora de nossos corpos.

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Eu duvido que você não tenha uma raivinha para soltar. Não bastassem as travessuras da vida, ainda fazemos parte de uma sociedade na qual as mulheres são cobradas por tudo e, mesmo que tudo façam, são consideradas inadequadas, insuficientes, capengas. Isso dá raiva.

Essas cobranças (e autocobranças) aumentam na medida em que envelhecemos e passamos a ser consideradas irrelevantes, como se tivéssemos menos a oferecer. Isso dá mais raiva ainda. Então, convido-a a deixar de lado a culpa por sentir raiva e chamar as amigas para um bolo com chá. Escolham seus sabores, resgatem suas raivas e as deixem ir em alto e bom som – para que as gargalhadas possam ser o ponto alto da festa.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.