Adriana Haas

Roube o seu tempo de vida

Adriana Haas transforma a culpa em coragem para tirar o tempo das mãos alheias e devolver a si mesma

Na maturidade, a gente descobre que o tempo é nosso bem mais valioso
Na maturidade, a gente descobre que o tempo é nosso bem mais valioso Foto : Freepik

Eu uso muito a expressão “não é bolinho”. Adoro. Mas me chamou a atenção quando duas mulheres, maduras como eu, comentaram que era “do nosso tempo". Não me desagrada que algumas coisas da minha juventude tenham caído em desuso – mas me incomoda acharmos que, por causa disso, nosso tempo já passou. Da mesma forma que para uma menina de 15 ou uma velha de 95, o meu tempo é agora.

Essa é uma expressão, entre muitas, que nos situa no passado em vez do presente, como se o agora não mais nos pertencesse. Já deveríamos ter feito tudo o que desejássemos ou, caso contrário, seria tarde demais. Às mulheres na maturidade caberia ceder seu lugar no palco, acomodando-se na plateia para usufruir de suas conquistas ou lamentar suas perdas. As cortinas da vida já teriam se fechado e só nos restaria esperar pelo apagar das luzes.

A realidade, no entanto, é bem diferente. Somos o grupo demográfico que mais cresce e estamos aqui, neste exato momento, para chupar a vida até o caroço. Só que, para isso, precisamos resgatar nosso tempo. Não o do passado, mas esse do cotidiano, que passa tão rápido quanto os panetones reaparecem no supermercado. Esse que a gente sempre dedicou mais aos outros que a nós mesmas. Pois a maturidade é a hora de pegar de volta pelo menos uma parte desse tempo e cuidar de nós como jamais tenhamos cuidado ou sido cuidadas.

O problema é que o dia tem apenas 24 horas e as suas já estão comprometidas. A única saída, então, é roubá-lo – o que não seria um delito, uma vez que é seu. Você vai apenas pegar de volta o tempo que vem distribuindo. A ideia é simples, mas a execução nem tanto, pois as pessoas que usufruem do seu tempo costumam ser as que você mais ama – e elas talvez não aceitem bem quando reivindicá-lo de volta. Podem reclamar e ficar emburradas, fazendo com que você se sinta uma megera egoísta.

Talvez você não aguente, nas primeiras tentativas, sentir-se péssima ao reclamar para si seu próprio tempo. É compreensível, fomos educadas para ceder e cuidar, como se isso fosse “da natureza” das mulheres. Mas é preciso persistir e subverter essa suposta ordem natural. Na maturidade, a gente descobre que o tempo é nosso bem mais valioso e não pode ser terceirizado para atender interesses alheios. Nossas antepassadas fizeram isso e o resultado, em geral, não foram histórias memoráveis.

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Há alguns dias, escutei de uma professora que cuidar de nós mesmas para que fiquemos saudáveis é uma forma de altruísmo, porque o mundo já está cheio de gente doente. Além disso, é pressuposto para amar os outros de maneira equilibrada. Já a culpa não é um sentimento, como a tristeza e a alegria – é um julgamento e, portanto, não vai virar personagem de filme e nem precisa ser acolhida. Lidar com ela não é bolinho, mas se for o preço a pagar para viver no presente, não parece tão alto.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.