É comum ouvir, atribuída a Nelson Mandela, uma frase que diz que tememos encarar nossa real dimensão – que é maior, e não menor, do que imaginávamos. Na verdade, foi a escritora Marianne Williamson quem escreveu: “nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que nos assusta".
Mas existe um erro muito mais comum do que essa atribuição de autoria: mulheres que buscam enxergar a si mesmas por meio de um espelho distorcido, que diminui seus tamanhos. Lembrei disso ao escutar a antropóloga Mirian Goldenberg contando sobre a época em que ficava feliz ao ouvir que parecia ser mais jovem. Um dia, quando estava na Alemanha para uma série de conferências, alguém lhe perguntou como podia se alegrar por sentir-se “menos” do que é. Na cultura alemã, a maturidade não é um problema para as mulheres – pelo contrário, é um adicional. Elas têm mais experiência, conhecimento e sabedoria. São “mais”, e não “menos”.
No Brasil, a percepção do envelhecimento feminino é diferente. A juventude é considerada um grande valor, associada à beleza, produtividade e vitalidade. Como consequência, à medida que os anos passam, é como se fôssemos perdendo tudo isso e nos tornando invisíveis, em um processo que pode ser muito doloroso. E como a “declaração pública” do envelhecimento é a aparência, passamos a acreditar que aparentando menos idade, valeríamos mais.
Mas a idade não é o único “menos” em que tentamos nos encaixar. Precisamos vestir os menores tamanhos, ser menos ambiciosas, menos agressivas, menos estridentes, menos faladeiras. Até no que deveríamos ser “mais”, a intenção é que sejamos “menos”: rir mais baixo, ser mais discreta, mais amorosa, mais ágil, mais compreensiva, mais tolerante. Não quero dizer que essas características sejam negativas em si, mas assumem esse caráter quando buscam retirar o que nos é autêntico para que caibamos em um modelo de feminilidade que valoriza apenas mulheres cordatas, produtivas e reprodutivas.
Só que o jogo está virando – e as mulheres maduras são as grandes responsáveis por isso. Elas já se submeteram a esses apequenamentos, sentiram na pele suas consequências e agora não os aceitam mais. Deixaram de considerar a juventude um elogio e estão aprendendo a conviver com as perdas que o envelhecimento traz. Como resultado, muitas maduras brasileiras garantem ser hoje mais livres do que jamais foram. Estão quebrando regras, derrubando estigmas, abandonando certezas e vivendo novas experiências. Também são “mais”, e não “menos”.
Fazer essa mudança de mentalidade é difícil quando tudo nos condena por estarmos envelhecendo, mas iniciar pequenininho é uma ótima alternativa. Experimente recusar o “você parece ter menos” na próxima vez que ele vier – e comece a perder o medo de assumir o seu tamanho.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
