Adriana Haas

O melhor lugar é em cima do muro

Adriana Haas pondera as motivações para intervenções estéticas na maturidade, considerando diferentes vivências e histórias que antecedem a decisão

Em uma sociedade que associa a beleza exclusivamente à juventude, envelhecer é um processo difícil
Em uma sociedade que associa a beleza exclusivamente à juventude, envelhecer é um processo difícil Foto : Freepik

É muito comum, quando as pessoas sabem que estudo sobre a maturidade e o envelhecimento feminino, que perguntem minha opinião sobre procedimentos estéticos. Aliás, é um tema cada vez mais presente em qualquer conversa entre mulheres na medida em que os anos passam. E foi com ele que iniciamos a gravação do episódio de estreia do podcast “Fala 50+”, um projeto do caderno Bella Mais capitaneado pela jornalista Lisiane Mossmann, que irá ao ar amanhã.

Éramos três convidadas maduras, com idades diferentes: uma 50+, uma 60+ e eu, uma 50- (porque, aos 48, estou mais perto dele do que dos 40). A primeira, que não faz intervenções estéticas, se posicionou contrária à elas. A segunda afirmou que as faz e continuará utilizando as vantagens oferecidas pela ciência nessa área por muito tempo. Quando chegou a minha vez, opinei que ambas estavam corretíssimas se suas escolhas as estiverem ajudando a envelhecer com liberdade.

Não é um posicionamento “em cima do muro”, como já me acusaram. Em uma sociedade que associa a beleza exclusivamente à juventude, envelhecer é um processo difícil – especialmente para as mulheres, que são massacradas por cobranças estéticas desde a infância. Mas cada mulher, além de um corpo, é formada também por uma história e pelo contexto que habita, e isso tudo influencia na forma como vai encarar a perda do colágeno. Quem sou eu, portanto, para julgar as escolhas de cada uma? Minha posição é de que, nessa fase em que as mudanças vão além do físico e ocasionam sacudidas emocionais profundas, cada mulher precisa encontrar sua forma de navegar em paz.

Mas teve um ponto em que todas nós convergimos: é uma decisão que precisa ser tomada com autonomia. Não porque as amigas fazem, porque o parceiro sugere ou porque se sente pressionada a manter uma aparência mais jovem, mas porque entende como algo que vai apoiá-la nesse momento. E nada impede uma mudança de opinião daqui a pouco. A abertura a novas possibilidades é algo que devemos cultivar sobretudo na maturidade, quando a experiência ajuda a entender o que serve e o que não serve mais para nossas vidas. Na juventude, a gente acredita que há apenas um caminho certo, mas o tempo mostra que existem muitos deles. A essa altura, não há porque deixar de experimentá-los.

E qual seria o limite entre o “saudável” e o “exagero” em relação aos procedimentos estéticos? Mais uma vez, prefiro olhar de cima do muro. Minhas avaliações são feitas com base nos meus referenciais, criados a partir das minhas experiências – como, então, poderia julgar exageradas as escolhas de uma mulher diferente? Já acreditei que minhas opiniões representavam a verdade e, portanto, poderia me basear nelas para avaliar o mundo, mas a maturidade me ensinou que abandonar as certezas e me abrir a perspectivas diferentes é mais divertido. Se isso significa ficar em cima do muro, me parece que é de lá que podemos ter os melhores pontos de vista na maturidade.

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Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.