Estreou há três semanas a nova temporada de “And Just Like That", o resgate da “Sex and the City” que por anos acompanhou mulheres que hoje estão na maturidade. E assim como nas duas primeiras temporadas, cada episódio gera comoção e discussão. Uma das críticas é de que as personagens parecem não ter amadurecido – ou ter feito a trajetória oposta, como a Miranda que passou de uma jovem equilibrada a uma madura insegura.
Entre os contrapontos, me chamou a atenção o de uma jornalista que admiro. Ela disse que não vê problemas na “imaturidade” das personagens, pois demonstraria que o tempo não havia levado embora suas “essências” da juventude, carregadas de espontaneidade e gosto pela diversão – o que ela mesma não queria perder com o passar dos anos. Mas quem disse que amadurecer significa perder a alegria?
Esse tipo de comentário está carregado de um etarismo que coloca as mulheres maduras em um lugar de secura e resignação. Amadurecer não é sinônimo de perder a leveza e a vontade de viver – e pode ter o significado oposto. Em meu antigo trabalho, conheci uma mulher que só floresceu na velhice, depois da morte do marido. Ela era a responsável pelo café e participava de qualquer coisa que lhe parecesse divertida, como a distribuição de camisinhas no Carnaval (o que fazia fantasiada, dançando pelos corredores da empresa). Inclusive, foi só nessa época que ela descobriu (ou conseguiu realizar) o que passou a ser seu grande momento: desfilar na escola de samba de seu coração.
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A história dela e de muitas outras mulheres mostra que a maturidade, em vez de ser a fase em que “murchamos”, pode ser a oportunidade para desabrochar. Vivemos em uma cultura que celebra os que se destacam cedo, que conquistam seu primeiro milhão antes dos 30 ou se tornam CEO antes dos 40. Mas a maturidade oferece perspectivas que só a passagem do tempo permite enxergar – como a de que sucesso é uma medida individual e que o roteiro tradicional nem sempre nos leva a ele. E a melhor parte é que temos tempo para mudar até o que chamamos de essência (e que pode ter sido moldada mais pelas expectativas externas do que por nossos desejos). É um bom momento para experimentar e descobrir.
Mas vamos voltar ao seriado. Do meu ponto de vista, ele perde ao colocar as personagens insistindo nas mesmas situações de anos atrás, como se as experiências que viveram não tivessem servido para aprimorar suas escolhas e intuição – o que é uma das maiores vantagens da maturidade. O tempo nos leva o colágeno, mas oferece sabedoria. É claro que isso não é regra (pelo menos a parte da sabedoria, quanto ao colágeno não tem jeito), mas é uma possibilidade ao alcance de quem está disposta a recomeçar nessa nova etapa. O envelhecimento traz perdas, mas focar apenas nelas nos faz perder de vista o lado bom da coisa.
Nenhuma de nós é Carrie, Miranda, Charlotte ou a mulher da escola de samba. Cada uma chega na maturidade com um repertório único, que pode “alquimizar” da forma como desejar e conseguir. O resultado é uma obra única, mas jamais finalizada. Enquanto vivermos, podemos ter sucessivas reestreias.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
