Adriana Haas

Uma transição para revigorar o casamento

Adriana Haas reflete sobre como a experiência compartilhada por homens e mulheres da maturidade

Ao encararmos o fato de não termos mais a vida inteira pela frente começamos a reavaliar escolhas passadas e possibilidades futuras
Ao encararmos o fato de não termos mais a vida inteira pela frente começamos a reavaliar escolhas passadas e possibilidades futuras Foto : Freepik

Havia um homem no encontro sobre menopausa. Chegou acompanhando a esposa e perguntou se podia ficar. Respondi que sim, um pouco receosa de que sua presença pudesse constranger as participantes – afinal, se não estamos acostumadas a falar sobre menopausa nem em grupos formados apenas por mulheres, imagine com um homem entre nós. Mas resolvi apostar.

E todos nós ganhamos. As mulheres não tiveram o menor pudor de falar sobre os efeitos da menopausa em seus corpos e emoções. Ele escutava com atenção. Até que uma delas lhe perguntou o que achava de tudo aquilo. Ele respondeu que se identificava com o que estávamos falando – não em relação à menopausa, mas à transição de vida que acompanha essa fase da maturidade. Embora não tenha passado pela transição hormonal feminina, ele contou ter vivido sua própria crise com a chegada dos 50 anos.

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Não foi uma surpresa. Quando escrevi o livro “40 e picos”, o primeiro leitor (meu marido) reclamou que eu não deveria direcionar a obra apenas a mulheres porque quase tudo servia para os homens. Eles também passam por uma transição quando chegam na meia-idade, parecida com a das mulheres em muitos aspectos. Ao percebermos o envelhecimento, encaramos o fato de não termos mais a vida inteira pela frente e começamos a reavaliar escolhas passadas e possibilidades futuras. Como se não bastasse, uma série de acontecimentos externos costumam convergir nessa etapa, como a dependência dos pais, independência dos filhos, pessoas próximas que morrem ou ficam doentes, nossos próprios problemas de saúde, mudanças profissionais, entre outros. Diante disso, passamos a querer mais dos anos que temos pela frente.

Mas apesar das semelhanças, há diferenças significativas. As mulheres sofrem uma cobrança social enorme em relação à aparência e chegam na maturidade percebendo terem dedicado a maior parte de seu tempo ao cuidado dos outros (a ponto de, muitas vezes, desconhecerem suas próprias necessidades e desejos). E ainda tem a menopausa, que costuma abalar nossas estruturas emocionais. É uma combinação e tanto!

Agora pense comigo: se, entre diferenças e semelhanças, tanto homens quanto mulheres passam por transições com a chegada da maturidade, fica evidente que nossos relacionamentos (sejam hétero ou homoafetivos) precisarão de ajustes. As relações de casal são como o “terceiro elemento” de um sistema dinâmico, do qual fazem parte duas individualidades – portanto, quando uma delas (ou as duas) muda, tudo se movimenta.

Pode ser um momento delicado, mas também uma oportunidade para renegociar a relação, investigando fórmulas mais adequadas ao novo momento de ambos. Insistir no clichê “ele/ela não é mais o mesmo” é perda de tempo: somos os mesmos, mas em versões diferentes e cheias de novos desejos. E não há soluções prontas que deem conta de uma equação tão complexa. Há casais que optam por rotinas quase independentes, outros que decidem passar a fazer tudo juntos – e infinitas possibilidades entre esses extremos. Quando abraçamos as transições em vez de “esperar que passem”, elas se tornam aliadas para que nossas relações ganhem fôlego revigorado.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.