Adriana Haas

Os cabelos estão de volta

Adriana Haas relembra os altos e baixos do processo de perder (e reencontrar) os fios durante a quimioterapia

É preciso ter paciência, cuidar sem apressar, respeitar o tempo de cada etapa
É preciso ter paciência, cuidar sem apressar, respeitar o tempo de cada etapa Foto : Freepik

Eles estão voltando. Cinco meses depois do início da quimioterapia, os fios de cabelo começam a popular minha cabeça que, a bem da verdade, nunca ficou completamente desabitada (mesmo nos períodos de maior escassez, alguns guerreiros persistiram). Já tem até aposta sobre a cor e a textura com que retornarão, que podem ser as mesmas ou diferentes. Por enquanto, seus poucos centímetros são insuficientes para enroscar-se (ou não) nos cachos que antes havia, mas a cor parece ser a mesma.

A proprietária da cabeça, no entanto, não é mais – e os cabelos têm muito a ver com isso. Em cada etapa do processo que atravessamos juntos, eles me ensinaram algo a meu respeito. A primeira surpresa veio com o insuspeitado apego por cabelos que já haviam sido submetidos a quase todo tipo de corte e química. Me achava tão livre de lealdade aos meus fios que poderia fazer deles o que bem entendesse – mas quando soube que os perderia, a tristeza bateu. Nunca estamos preparadas para abandonar o que, acreditamos, faz parte de nossa identidade.
Depois veio o desapego, com o primeiro corte curto dos meus 48 anos. Foi uma tentativa de suavizar o processo que, naquele momento, imaginava pesado demais. Caminhei até o salão certa de que choraria nas primeiras tesouradas, mas acabei me divertindo com os três comprimentos que o cabeleireiro tentou durante duas horas – e que eu acabava pedindo para tirar mais. Saí de lá muito mais leve, de cabelos e de expectativas.
Algumas semanas depois, a careca chegou – por minha iniciativa. Embora algumas pessoas sugerissem que eu não raspasse (quem sabe, diziam, não caísse tudo), decidi que era preciso uma ruptura. Ao me deparar com os primeiros tufos espalhados pela casa, passei a máquina nos cabelos e nas ilusões, como um ritual simbolizando tudo o que eu precisava deixar para trás nessa transição de vida. Não posso dizer que foi divertido dessa vez, mas foi menos doloroso do que esperava.

Veja Também

Em seguida, vieram os meses sem cabelo, que eu antevia críticos – não apenas por vaidade, mas porque a careca era a declaração pública de que eu tinha câncer. Descobri na pele que passamos a ser uma sociedade onde não apenas a aparência, mas também a saúde, são símbolos de sucesso (e quem não consegue mantê-las merece olhares piedosos pelo fracasso). Para me proteger deles, havia comprado um único chapéu. No final das contas, o verão estendido e minha capacidade de adaptação deixaram o chapéu de veludo sem uso até hoje. Talvez venha a proteger minhas orelhas nas próximas ondas de frio, já que a cabeça está ficando coberta pelos novos fios, ainda ralos.
E esses fiozinhos delicados me ensinam que não dá para apressar o que está nascendo. Para tudo o que vem da natureza, o tempo que sucede o nascimento é de fragilidade. É preciso ter paciência, cuidar sem apressar, respeitar o tempo de cada etapa – que não é o tempo determinado pela nossa mente. Existe um universo de coisas que não podemos controlar e que nos convidam a descobrir do que somos capazes quando nos sentimos à deriva. Cada processo é único, mas posso garantir: ao assumirmos o protagonismo das nossas narrativas, nos descobrimos donas de forças até então desconhecidas – e que nunca mais vão nos abandonar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Há duas semanas, terminou a quimioterapia que vai deixar um linfoma para trás.