Ninguém gosta de errar. Desde crianças, somos condicionadas a ver os erros como problemas a serem evitados a qualquer custo – especialmente porque, ao cometê-los, decepcionaremos aqueles que desejamos impressionar. Lá em nossos submundos psíquicos, morremos de medo de que essas pessoas nos considerem fracassadas e deixem de nos admirar. Assim, vamos apostando sempre nos caminhos seguros e abrindo mão dos mais arriscados – ainda que sejam eles os que vão ao encontro dos nossos desejos.
E seguimos nesse piloto automático até que a maturidade chega para colocar nossas escolhas e métodos em xeque. Desejos abandonados nos reencontram, novos deles surgem, e passamos a considerar caminhos diferentes, em que vislumbramos um entusiasmo há muito perdido entre os afazeres do cotidiano. Mas o medo de errar segue nos paralisando. E agora, além do pavor de decepcionar as pessoas ao surpreender-lhes com partes de nós que elas desconheciam, parece que o calendário joga contra. Enquanto na juventude tínhamos tempo para voltar atrás, agora já estamos na metade da vida. Mas será que, por isso, não teríamos mais tempo para errar?
É uma preocupação razoável, mas pouco útil se considerarmos que são os erros que conduzem à sabedoria. Eles ativam circuitos cerebrais de avaliação, motivação e adaptação, permitindo ao cérebro ajustar seu funcionamento para alcançar melhores resultados no futuro – o que não ocorre quando temos sucesso. Se você pensar em histórias inspiradoras que já escutou e até em sua própria trajetória, verá que a maioria dos avanços pessoais, seja em relacionamentos, carreira ou identidade, acontecem fora do terreno conhecido e contrariando as expectativas alheias.
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Para quem se vê presa pelo medo de assumir grandes riscos, uma alternativa mais confortável é começar fracassando na miúda. Quando iniciamos uma atividade nova, os erros são inevitáveis. Em uma primeira tentativa, podem parecer insuperáveis. Mas enquanto persistimos, o cérebro trabalha buscando formas criativas de superá-los – que poderão ser aplicadas de maneiras diferentes e em escalas maiores em qualquer área da vida. E de erro em erro, vamos perdendo o receio de fracassar. Portanto, escolha seus fracassos e mãos à obra.
Mas ainda tem o temor de decepcionar os outros – relacionado mais à nossa expectativa do que à realidade, já que ninguém consegue prever a reação de outro ser humano. Quanto a isso, vale a pena selecionar as decepções com as quais acreditamos poder lidar e começar por elas. Na medida em que as vamos conhecendo, elas assumem seu tamanho real e deixam de parecer fatais. E a coragem cresce enquanto é exercitada, como um músculo que estava fraquinho e vai ganhando volume para sustentar nosso tamanho. Nunca é tarde para fracassar, decepcionar e descobrir que a vida pode ter novas cores.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
