Adriana Haas

É hora de decepcionar e viver

Adriana Haas reflete sobre o exercício da coragem considerando os pequenos fracassos

Enquanto na juventude tínhamos tempo para voltar atrás, agora já estamos na metade da vida
Enquanto na juventude tínhamos tempo para voltar atrás, agora já estamos na metade da vida Foto : Freepik

Ninguém gosta de errar. Desde crianças, somos condicionadas a ver os erros como problemas a serem evitados a qualquer custo – especialmente porque, ao cometê-los, decepcionaremos aqueles que desejamos impressionar. Lá em nossos submundos psíquicos, morremos de medo de que essas pessoas nos considerem fracassadas e deixem de nos admirar. Assim, vamos apostando sempre nos caminhos seguros e abrindo mão dos mais arriscados – ainda que sejam eles os que vão ao encontro dos nossos desejos.

E seguimos nesse piloto automático até que a maturidade chega para colocar nossas escolhas e métodos em xeque. Desejos abandonados nos reencontram, novos deles surgem, e passamos a considerar caminhos diferentes, em que vislumbramos um entusiasmo há muito perdido entre os afazeres do cotidiano. Mas o medo de errar segue nos paralisando. E agora, além do pavor de decepcionar as pessoas ao surpreender-lhes com partes de nós que elas desconheciam, parece que o calendário joga contra. Enquanto na juventude tínhamos tempo para voltar atrás, agora já estamos na metade da vida. Mas será que, por isso, não teríamos mais tempo para errar?

É uma preocupação razoável, mas pouco útil se considerarmos que são os erros que conduzem à sabedoria. Eles ativam circuitos cerebrais de avaliação, motivação e adaptação, permitindo ao cérebro ajustar seu funcionamento para alcançar melhores resultados no futuro – o que não ocorre quando temos sucesso. Se você pensar em histórias inspiradoras que já escutou e até em sua própria trajetória, verá que a maioria dos avanços pessoais, seja em relacionamentos, carreira ou identidade, acontecem fora do terreno conhecido e contrariando as expectativas alheias.

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Para quem se vê presa pelo medo de assumir grandes riscos, uma alternativa mais confortável é começar fracassando na miúda. Quando iniciamos uma atividade nova, os erros são inevitáveis. Em uma primeira tentativa, podem parecer insuperáveis. Mas enquanto persistimos, o cérebro trabalha buscando formas criativas de superá-los – que poderão ser aplicadas de maneiras diferentes e em escalas maiores em qualquer área da vida. E de erro em erro, vamos perdendo o receio de fracassar. Portanto, escolha seus fracassos e mãos à obra.

Mas ainda tem o temor de decepcionar os outros – relacionado mais à nossa expectativa do que à realidade, já que ninguém consegue prever a reação de outro ser humano. Quanto a isso, vale a pena selecionar as decepções com as quais acreditamos poder lidar e começar por elas. Na medida em que as vamos conhecendo, elas assumem seu tamanho real e deixam de parecer fatais. E a coragem cresce enquanto é exercitada, como um músculo que estava fraquinho e vai ganhando volume para sustentar nosso tamanho. Nunca é tarde para fracassar, decepcionar e descobrir que a vida pode ter novas cores.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.