Adriana Haas

A liberdade dá trabalho

Adriana Haas reflete sobre o valioso preço de tomar as próprias decisões

É preciso identificar as crenças que nos limitam para, aos poucos e com autocompaixão, descobrir como superá-las
É preciso identificar as crenças que nos limitam para, aos poucos e com autocompaixão, descobrir como superá-las Foto : Freepik

Caso você siga perfis de influenciadoras maduras nas redes sociais, já deve ter escutado frases como “não me preocupo mais com a opinião dos outros” ou “liguei o botão do f****”. Tenho percebido um número cada vez maior de mulheres dizendo “não” para sustentar seus limites – ainda que uma das consequências seja desagradar pessoas valiosas, como parceiros e filhos. O retorno negativo pode vir na forma de desentendimentos, brigas, narizes torcidos, acusações de egoísmo ou relações estremecidas. A liberdade cobra um preço alto.

Só que, além disso, ela dá trabalho – porque não são apenas os outros que restringem nossa liberdade. Ao crescer em uma cultura na qual as mulheres precisam se submeter a uma série de requisitos sobre o que devem e o que não devem ser, acabamos introjetando essas regras e ajustando a elas nossos corpos, comportamentos e sentimentos. Nos encarceramos por conta própria em grades disfarçadas de escolhas.

Esse roteiro de vida que nos é apresentado como único abarca todas as áreas. Precisamos nos preparar como profissionais, conquistar nosso lugar no mercado de trabalho, encontrar um bom parceiro de quem devemos cuidar para, com ele, constituir uma família da qual devemos cuidar, em uma casa de que devemos cuidar. Enquanto isso, é imprescindível investir tempo, energia e dinheiro na manutenção de uma aparência adequada a padrões que conhecemos bem – e que, com o envelhecimento, passam a incluir mais um: parecer mais jovem.

Esses valores culturais são tão predominantes que chegam a parecer “naturais” e se misturam com os valores pessoais. Adotamos-os como se fossem nossos. É por isso que, quando chegamos na maturidade buscando mais liberdade para viver de acordo com nossos desejos, é preciso identificar as crenças que nos limitam para, aos poucos e com autocompaixão, descobrir como superá-las. É um processo demorado, cheio de recaídas e, muitas vezes, doloroso.

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Mas se a liberdade custa caro e ainda dá tanto trabalho, será que vale a pena? Sim, e muito. Na verdade, é um dos melhores investimentos, porque rende no curto e no longo prazo. Experimente dizer “não” em uma situação em que seus limites estejam sendo ultrapassados – o preço pode ser alto, mas o retorno é imediato: aquele inestimável sentimento de amor próprio. Agora, imagine-se abandonando os estigmas que carrega sobre o envelhecimento, como o de que mulheres mais velhas não são desejáveis. É liberdade na veia, empoderamento instantâneo. Se persistir no cultivo dessas liberdades, o futuro lhe oferecerá uma perspectiva diferente e você poderá olhar para sua trajetória orgulhando-se de ter feito escolhas com autonomia. Isso compensa o preço e vale todo o trabalho.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.