A morte da Preta Gil, aos 50 anos, comoveu muita gente: alguns, porque eram fãs; outros, porque admiravam suas atitudes; e muitos porque enxergaram, na partida precoce da cantora, sua própria finitude. Embora saibamos que um dia a nossa hora vai chegar, vivemos sem pensar na morte a maior parte do tempo – especialmente durante a juventude, quando parece óbvio que ela não nos espera tão cedo.
Na maturidade, porém, a morte costuma se apresentar de formas contundentes, como no diagnóstico de uma doença potencialmente fatal ou na perda de nossos pais, que funcionam como um “escudo” contra a mortalidade (pela ordem natural, depois deles será a nossa vez). Esse enfrentamento, junto com outras mudanças que a maturidade traz, pode ser o catalisador para o que muitos chamam de “crise” na meia-idade – mas eu acho mais adequado chamar de “transição”.
A transição da maturidade acontece por diferentes motivos e das mais variadas maneiras, mas tem uma coisa em comum para todos: o mundo externo e o interno parecem conspirar para nos mostrar que precisamos considerar outros caminhos – afinal, a morte tem nosso nome na lista e é impossível conhecer o seu cronograma. Pode ser daqui a 40 anos ou amanhã, mas seja ele qual for, esse tempo precisa valer a pena. Ninguém quer chegar na hora M carregando o arrependimento de não ter, por escolhas próprias, vivido como desejava. A dor física pode ser anestesiada, mas para a dor existencial não há remédio.
Acontece que a escolha de caminhos alternativos implica em outras mortes, com as quais também não aprendemos a lidar. Pense num trabalho, projeto ou relacionamento que está respirando com a ajuda de aparelhos, mas você insiste em manter. Todos os sinais indicam que não há mais chance, que tudo já foi tentado e que chegou a hora de deixar ir. No entanto, você segue resistindo porque é difícil abrir mão do que algum dia foi significativo – mesmo que hoje traga mais sofrimento do que alegria.
Vale também para partes de nossa identidade. A maturidade chega trazendo novas necessidades, desejos e sonhos, mas alguns deles são incompatíveis com características de personalidade que julgávamos definitivas. “Eu sou assim e quem quiser que aceite”, dizem as que se recusam a aceitar que somos metamorfoses ambulantes – e que isso é uma benção quando nossos comportamentos se tornam barreiras.
É verdade que cabem muitas vidas dentro de uma vida e que nunca é tarde para buscá-las. A essa altura de nossas trajetórias, já acumulamos um bom tempo de estrada. Sabemos o que funcionou, o que bateu na trave, e temos bagagem suficiente para decidir o que serve e o que não serve mais. Os planos criados na maturidade tendem a ser os mais assertivos porque têm como base a realidade em vez das idealizações. Mas para que vinguem, algumas coisas precisam ser abandonadas. Só não há mortes, reais ou simbólicas, para quem já parou de viver – e você ainda não tem idade para isso.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
