Uma pessoa estranhou o fato de que, durante as viagens, eu poste vídeos das minhas pernas e pés enquanto caminho – mesmo quando o lugar para onde estou indo não aparece. É um hábito que adquiri há três anos, quando comecei a viajar sozinha, e que nunca procurei explicar: a ideia me surgiu, gravei o primeiro vídeo e não parei mais. Só agora entendi o motivo.
A percepção veio durante um encontro sobre métricas femininas com Mariana Bandarra e Bárbara Nickel, fundadoras da comunidade As Criadoras, justamente um dia depois desse comentário. Quando elas falaram sobre a influência dos processos na qualidade dos resultados, entendi que comecei a observar meu caminhar como forma de cuidado, para chegar inteira ao destino – não apenas no sentido físico, mas de plenitude. Quero cruzar as linhas de chegada tão íntegra quanto estive ao longo das trajetórias.
Esse gesto nasceu inconsciente, mas reflete uma decisão consciente que tomei na maturidade. Tendo vivido o suficiente para perceber que a maior parte da vida é feita de processos (e não de resultados), decidi dar tanta importância à caminhada quanto ao ponto de chegada. E não me refiro apenas a postagens e viagens, mas a meus projetos de vida – entendendo “projetos de vida” como sonhos organizados em forma de caminho.
Um exemplo ajuda a esclarecer. Quando recebi o diagnóstico de um linfoma, só queria que tudo terminasse logo para estar curada. Mas, à medida que a realidade se impunha, decidi viver cada dia do processo com toda a presença, controlando o que me era possível e manejando o que não era. Busquei apoios físicos, psicológicos e espirituais para cuidar de mim como jamais havia feito. Escrevi para me entender com os sentimentos difíceis, chorei, decidi não esconder a careca e mantive o otimismo. Acabei passando pelo processo com poucos efeitos colaterais e inspirando outras pessoas. Ainda não sei o resultado da quimioterapia, mas já me sinto curada.
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Entre os autocuidados que adotei, estava um sobre o qual Mari e Bárbara também comentaram: perguntar-me diariamente como estava e do que precisava. Não há previsibilidade em uma quimioterapia. Cada pessoa vive o tratamento de um jeito, ainda que siga o mesmo protocolo. E cada dia, para a mesma pessoa, é diferente – tanto pelos efeitos colaterais quanto pelo fato de que vamos mudando a cada passo. Cuidar de si em cada pedacinho do processo é a maneira mais eficaz para chegar ao final da melhor forma.
Na primeira viagem que fiz depois do fim do tratamento, segui com os vídeos e com a estratégia. Estive mais atenta ao meu corpo do que ao roteiro, monitorando minha disposição e desejos em cada trecho percorrido. Como resultado, abri mão de passeios já pagos, incluí pausas demoradas, troquei caminhadas por pernas para cima – um comportamento bem diferente do que tinha na juventude, quando cada objetivo planejado precisava ser executado a qualquer preço. Hoje, ao celebrar o movimento dos meus pés antes que cheguem ao destino, também me sinto curada da obstinação que reserva o prazer apenas aos pontos finais.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
