Adriana Haas

Amadurecer é dizer “não” – e “sim”

Adriana Haas reflete sobre a importância de impor limites na maturidade

Por amor ou necessidade, você acabou cedendo tantas vezes que a tinta dos seus limites enfraqueceu
Por amor ou necessidade, você acabou cedendo tantas vezes que a tinta dos seus limites enfraqueceu Foto : Freepik

Lembra quando você era criança e brincava de deitar sobre um papel para que alguém desenhasse o contorno do seu corpo? Depois, ficava à vontade para rabiscar o que quisesse, dentro e fora da linha demarcada. Mas você foi crescendo e outras pessoas entraram na brincadeira. Teve até quem lhe desse um “chega pra lá”, assumindo o comando. Por amor ou necessidade, você acabou cedendo tantas vezes que a tinta dos seus limites enfraqueceu.

Até que você chega à maturidade cansada de vê-los ultrapassados e decide dar um basta – afinal, está na metade da vida e precisa redesenhar seus contornos. O problema é que isso implica dizer “não” para algumas pessoas. Então você começa a imaginar as reações negativas daqueles a quem gostaria de dizer “não” quando diz “sim”. Ficarão chateados? Vão achar que está sendo egoísta? E você antecipa a culpa por desagradar as pessoas por quem deseja ser amada e admirada.

É possível que, quando era mais jovem, você tenha desistido ao chegar nesse ponto. Tinha todo o tempo do mundo pela frente e podia deixar para depois. Mas agora essa ilusão de eternidade está se desfazendo. Você percebe no corpo que o tempo voa e que precisa fazer o melhor com o que tem pela frente. Chegou a hora de dizer os “nãos” necessários e pegar de volta a caneta para redefinir seus limites, junto com suas necessidades e desejos – que, de tanto serem ignorados, também ficaram meio apagados.

Mas seu desenho não é feito apenas de contorno. Depois de reforçar os limites, você precisa preencher o que há dentro deles – e isso se faz dizendo “sim” às oportunidades que a vida oferece. Pode ser que você não as enxergasse quando estava focada em atender os outros, mas agora elas começam a aparecer: viajar sozinha, começar algo do zero, voltar a estudar, topar um convite, se arriscar nas artes, mudar de carreira, encontrar um hobby, amar de novo.

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Talvez você precise descartar o antigo desenho e começar de novo, descobrindo os novos contornos da mulher madura que se tornou. E quando chegar a esta etapa da obra, algumas pessoas vão estranhar que você tenha trocado os tons neutros pelos coloridos. Mas depois de ter enfrentado a culpa pelos “nãos”, reforçar os “sins” é brincadeira de criança.

Ou nem tanto. Nossa sociedade torce o nariz para o atrevimento das maduras. Somos consideradas “velhas demais” para mudar a paleta de cores da vida. Mas um número cada vez maior de mulheres está desafiando as críticas para descobrir o que lhes serve – que pode ser muito diferente do que acreditavam antes, influenciadas por um roteiro pré-determinado para se tornar uma mulher de boa reputação.

Não me refiro apenas à Vera Wang ou Cora Coralina, que aparecem em livros e revistas, mas às maduras que, em pequenos movimentos, refazem seus limites para criar o que desejam. Elas estão em todos os lugares, fazendo arte com as próprias vidas. Se você ainda não se reconhece como uma delas, saiba que está com a caneta na mão.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.