Se você tem mais de 40 anos e trabalha em algo relacionado com criatividade (ou conhece alguém que trabalha), já deve ter ouvido falar nas páginas matinais. Elas fazem parte do método criado pela escritora Julia Cameron, apresentado no livro “O Caminho do Artista”, de 1992. A obra já teve mais de 5 milhões de exemplares vendidos, disseminando a prática mundo afora.
Escutei muita gente falar sobre as páginas matinais antes de ter contato com o método e, quando li o livro, descobri que elas são apenas o primeiro passo. Nunca ouvi alguém falar sobre o segundo, que é o encontro com o artista. A própria autora oferece uma possível explicação, baseada na experiência com seus alunos. Segundo Cameron, eles ficam satisfeitos ao receberem algo em que trabalhar (as páginas matinais, que precisam ser escritas todos os dias, nos 45 minutos depois de acordar). Mas quando precisam passar uma hora por semana fazendo algo que lhes dê prazer, travam. Têm dificuldades até para relacionar cinco atividades simples que poderiam fazer apenas porque curtem.
Acha exagero? Então tente fazer a sua lista (lembrando que não se trata de atividades grandiosas ou edificantes, mas de prazeres comuns e baratos). A gente empaca como se, na vida, importasse apenas o que está relacionado à produção, restando ao prazer o tempo que sobra. É a mesma lógica adotada para reorganizar a agenda quando surge um compromisso inesperado. Qual é a primeira coisa que você elimina para encaixar a nova demanda? Eu aposto que é alguma atividade que faria por diversão (se é que isso entra na sua agenda). Com os ajustes de orçamento acontece o mesmo: na hora de apertar o cinto, as atividades de lazer são as primeiras eliminadas, mesmo que custem pouco. Elas não são avaliadas pelo preço, mas pelo valor – e nós valorizamos pouco o que nos diverte.
Como resultado, acabamos esperando para ter prazer apenas nos fins de semana, nas férias, depois que os filhos saírem de casa, na aposentadoria. E as horas de hoje passam voando entre as atividades profissionais e os afazeres domésticos e familiares. O problema é que a vida é uma sucessão de “hojes” – e passa com a mesma qualidade que atribuímos a eles.
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É por isso que precisamos levar a alegria mais à sério, colocá-la na agenda e provocar encontros que a tragam para nossas vidas – seja com lugares, comidas, artes, experiências e principalmente pessoas. O filósofo Baruch de Espinosa escreveu que a alegria é o principal afeto capaz de aumentar a nossa potência de agir. E o que mais poderíamos querer ao chegarmos na metade da vida com o sentimento de que o tempo que temos pela frente é tanto, mas tão pouco?
Você pode argumentar que não trabalha com criatividade, então não precisaria nem das páginas matinais e nem de encontros com o artista. Mas, na maturidade, a criatividade nos ajuda a descobrir novas formas de viver, mais alinhadas com quem somos. E eu não sei bem qual é a relação entre criatividade e alegria, mas elas andam coladinhas. Convide uma a entrar e a outra chega de penetra. Nem precisa seguir algum método para isso – basta firmar compromisso com seu próprio prazer que elas lhe farão companhia.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
