Adriana Haas

O terceiro caminho para uma vida boa

Adriana Haas reflete sobre as diferentes possibilidades de rotas para a satisfação na vida

A vida boa não é aquela livre de dores ou feita apenas de alegrias, mas a que oferece grandes histórias para serem contadas
A vida boa não é aquela livre de dores ou feita apenas de alegrias, mas a que oferece grandes histórias para serem contadas Foto : Pexels

Atire a primeira pedra quem, na juventude, não apostou que a vida boa estaria garantida quando alcançasse um padrão confortável, com bons relacionamentos e uma certa previsibilidade, o que a tornaria repleta de momentos felizes. Ao chegar na maturidade, no entanto, já entendemos que conciliar esses elementos é mais complexo do que parecia e não há arranjo que venha com garantia de satisfação.

Mais recentemente, quando pesquisadores comprovaram a importância do significado para uma vida boa, a onda do “propósito” quase nos engoliu. Todo mundo precisava descobrir qual era o seu talento natural que, colocado em prática, contribuiria com outras pessoas e tornaria gratificante sua existência. Quem estava trabalhando duro no que lhe era possível para pagar as contas ficou desnorteada – se é que teve tempo para isso.

Agora, especialistas estão indicando um terceiro caminho para a satisfação: ter uma vida psicologicamente rica. Ela não se preocupa tanto em acumular momentos felizes ou em construir uma narrativa de propósito linear. Seu valor está na variedade de experiências.

Mas observe que não são quaisquer experiências que entram aqui – as que contam são as experiências que transformam, desacomodam e mudam a forma como enxergamos o mundo. Em resumo: as que tornam a vida mais interessante.

E tem um detalhe fundamental. Uma vida psicologicamente rica inclui tanto as experiências positivas (como viagens, mudanças de carreira e novos aprendizados) quanto aquelas que são indesejáveis à primeira vista, como crises, perdas e transições difíceis. O critério não é se foram prazerosas, mas se nos fizeram crescer. Em qualquer das perspectivas, essa “terceira via” pode ser um grande trunfo para as mulheres maduras.

No campo das experiências positivas, já temos autoridade sobre nossas escolhas porque sabemos melhor o que nos serve e o que não funciona de jeito nenhum. Esse refinamento nos permite escolher experiências com consciência e assertividade – mas sem abrir mão de, vez ou outra, nos lançarmos ao desconhecido. O frio na barriga de iniciar algo inédito pode ser um bom indicador de “interessâncias”.

Veja Também

Por outro lado, é na maturidade que muitas experiências consideradas negativas se concentram: o ninho vazio, pais que adoecem, mudanças na saúde e na aparência, relações que se transformam, carreiras que precisam ser reinventadas, o próprio envelhecimento. São transições inevitáveis que, embora dolorosas, nos levam a descobrir novos recursos internos e a reconfigurar nossa trajetória.

O caminho da vida psicologicamente rica amplia nossa compreensão sobre o que significa viver bem, reconhecendo que há beleza na complexidade e crescimento na adversidade. E o melhor é que não é preciso escolher entre felicidade, propósito e riqueza psicológica, pois podemos buscá-los ao mesmo tempo, de maneiras complementares.

Pelo que a ciência nos comprova, a vida boa não é aquela livre de dores ou feita apenas de alegrias, mas a que oferece grandes histórias para serem contadas – sobretudo a nós mesmas.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.