Adriana Haas

Chegou a hora da sua atualização

Adriana Haas compartilha como cada fase da vida pode abrir novos caminhos

Transições de vida podem ser leves ou intensas, mas são inevitáveis
Transições de vida podem ser leves ou intensas, mas são inevitáveis Foto : Pexels / CP

Alguém sugeriu que, para a próxima reimpressão do meu primeiro livro, eu mudasse a foto da contracapa, em que ainda tinha cabelos cacheados, na altura dos ombros – bem diferente da versão atual, com fios platinados e perto de raspados. Até considerei a ideia, mas desisti ao lembrar que a pessoa que escreveu o livro era aquela e não esta. A mesma mulher, só que atualizada.

E não me refiro apenas ao visual. Coisas grandes aconteceram nos três anos desde que lancei “40 e picos”, capazes de transformar outras tantas que, dentro de mim, não eram pequenas. É o que chamamos de “transições de vida”, pelas quais todo ser humano vai passar (segundo pesquisas, de forma leve a cada dois anos e meio, em média, e mais intensa a cada cinco). Algumas são suaves, chegam e vão provocando mudanças de mansinho. Outras são “terremóticas”, como diz uma de minhas mestras (termo que dispensa explicações).

Aquela mulher de cabelos cacheados escreveu sobre a transição decorrente do próprio envelhecimento. A gente sabe que acompanhar a derrocada do colágeno não é fácil. Vivemos em uma sociedade na qual a juventude é considerada atributo suficiente para que uma pessoa tenha valor – e sua perda implicaria na depreciação. Portanto, na medida em que a pele começa a ceder, não tememos apenas por vaidade, mas porque essas mudanças nos retirariam do palco onde a vida se desdobra.

Como se não bastasse, um monte de coisas começam a acontecer nessa fase. Podemos ter doenças como o câncer que me levou os cachos durante o tratamento, ou acompanhar pessoas queridas em processos semelhantes. Mudanças profissionais (ou a perspectiva de que elas aconteçam) nos impactam. A configuração familiar muda com separações, filhos saindo de casa ou velhos precisando de cuidados, o que multiplica a demanda para mulheres com filhos pequenos. E acabamos perdendo pessoas como os pais, que são uma espécie de “escudo” contra a morte – pois pela ordem natural das coisas, depois deles será a nossa vez. Nossa própria mortalidade dá as caras.

A possibilidade de acumular muitos desses motivos torna quase inevitável uma atualização na maturidade. A mulher de cabelos curtos de hoje segue escrevendo sobre o envelhecimento, mas também sobre menopausa, sobre a necessidade de conexão com outras mulheres, sobre antifragilidade – que, melhor que a resiliência, define a capacidade não apenas de nos recuperarmos, mas de nos aprimorarmos com as provações. Minha atualização pessoal me ofereceu mais repertório para escrever e viver.

Mas ela só foi possível porque a escolhi. Tem pessoas que resistem às transições por não saberem o que encontrarão ao final delas. Passam pelas situações mais desafiadoras tentando se agarrar à versão antiga, para garantir que tudo volte a ser como era. Nunca volta – e pode ser a melhor coisa que vai lhe acontecer. Atualizar-se é aceitar que a foto antiga jamais será igual à atual, mas que juntas podem contar uma bela história.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.