Alguém sugeriu que, para a próxima reimpressão do meu primeiro livro, eu mudasse a foto da contracapa, em que ainda tinha cabelos cacheados, na altura dos ombros – bem diferente da versão atual, com fios platinados e perto de raspados. Até considerei a ideia, mas desisti ao lembrar que a pessoa que escreveu o livro era aquela e não esta. A mesma mulher, só que atualizada.
E não me refiro apenas ao visual. Coisas grandes aconteceram nos três anos desde que lancei “40 e picos”, capazes de transformar outras tantas que, dentro de mim, não eram pequenas. É o que chamamos de “transições de vida”, pelas quais todo ser humano vai passar (segundo pesquisas, de forma leve a cada dois anos e meio, em média, e mais intensa a cada cinco). Algumas são suaves, chegam e vão provocando mudanças de mansinho. Outras são “terremóticas”, como diz uma de minhas mestras (termo que dispensa explicações).
Aquela mulher de cabelos cacheados escreveu sobre a transição decorrente do próprio envelhecimento. A gente sabe que acompanhar a derrocada do colágeno não é fácil. Vivemos em uma sociedade na qual a juventude é considerada atributo suficiente para que uma pessoa tenha valor – e sua perda implicaria na depreciação. Portanto, na medida em que a pele começa a ceder, não tememos apenas por vaidade, mas porque essas mudanças nos retirariam do palco onde a vida se desdobra.
Como se não bastasse, um monte de coisas começam a acontecer nessa fase. Podemos ter doenças como o câncer que me levou os cachos durante o tratamento, ou acompanhar pessoas queridas em processos semelhantes. Mudanças profissionais (ou a perspectiva de que elas aconteçam) nos impactam. A configuração familiar muda com separações, filhos saindo de casa ou velhos precisando de cuidados, o que multiplica a demanda para mulheres com filhos pequenos. E acabamos perdendo pessoas como os pais, que são uma espécie de “escudo” contra a morte – pois pela ordem natural das coisas, depois deles será a nossa vez. Nossa própria mortalidade dá as caras.
A possibilidade de acumular muitos desses motivos torna quase inevitável uma atualização na maturidade. A mulher de cabelos curtos de hoje segue escrevendo sobre o envelhecimento, mas também sobre menopausa, sobre a necessidade de conexão com outras mulheres, sobre antifragilidade – que, melhor que a resiliência, define a capacidade não apenas de nos recuperarmos, mas de nos aprimorarmos com as provações. Minha atualização pessoal me ofereceu mais repertório para escrever e viver.
Mas ela só foi possível porque a escolhi. Tem pessoas que resistem às transições por não saberem o que encontrarão ao final delas. Passam pelas situações mais desafiadoras tentando se agarrar à versão antiga, para garantir que tudo volte a ser como era. Nunca volta – e pode ser a melhor coisa que vai lhe acontecer. Atualizar-se é aceitar que a foto antiga jamais será igual à atual, mas que juntas podem contar uma bela história.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
