É mais fácil esperar que alguém desista por você. Conheço duas mulheres que, há pouco mais de um ano, iniciaram um projeto juntas. A parceria funcionava bem até que uma delas, a mais jovem, começou a acumular outros trabalhos e ver seu tempo cada vez mais escasso. Entre tarefas profissionais, domésticas e de cuidados dos filhos, tinha apenas as madrugadas movidas a energético para dedicar ao projeto que, se antes era paralelo, agora ficava cada vez mais à margem.
A sócia, uma mulher madura, apoiou a amiga em suas empreitadas e foi assumindo partes do trabalho dela. Só que o acúmulo de atividades cresceu e começou a inviabilizar até os encontros presenciais que lhes eram tão caros no começo. Ela alertou a parceira de que, naquele ritmo, não teria energia para tudo, de que precisava reservar tempo para descansar – argumentos para os quais não damos ouvidos na juventude, quando correr como loucas para dar conta é sinal de sucesso.
Antes que a parceira entrasse em colapso e a amizade terminasse, a mais madura decidiu desistir. Percebeu que a sócia não tinha coragem para a decisão e optou por tomá-la, ainda que desejasse a continuidade do projeto. O resultado foi luto – e alívio. Com um adicional inesperado: energia para começar novos projetos.
Talvez você já tenha vivido uma relação, profissional ou pessoal, em que precisou desistir por alguém. Talvez tenha sido a pessoa que reluta em desistir mesmo quando todas as evidências indicam que aquela relação precisa ficar no passado – mas, inconscientemente, fica encontrando motivos para estender o que não funciona mais. Talvez esteja passando por isso agora mesmo.
Se for o caso, não se sinta culpada. É natural que relutemos em desistir em uma sociedade que exalta a perseverança. Ela, de fato, é muito positiva, mas não a qualquer preço. E o preço de ficarmos esperando que os outros desistam por nós é alto: é tempo. Tempo que poderíamos dedicar a novos projetos de vida. Tempo da própria vida – e dele não se recupera um único segundo.
É possível que você (ou a outra pessoa) esteja adiando a decisão pela vergonha de ser “o desistente”. Ou pela culpa de frustrar expectativas alheias, magoar, encerrar algo ao qual tantos recursos foram dedicados (trabalho, dinheiro, tempo, sentimentos). Então, acaba encontrando formas de minar a relação até que se torne tão ruim que o outro desista, assumindo a iniciativa pelo suposto fracasso. Enquanto isso não acontece, outras oportunidades passam despercebidas, pois o foco segue na parceria já extinta.
Não há “hora certa” para desistir, assim como não há finais sem luto – mas precisa existir coragem para encerramentos respeitosos, em que um não fique jogando ao outro a “batata quente” da desistência. A vida está cheia de oportunidades que a gente só enxerga quando tira o foco do que já morreu. E, na maturidade, os anos de estrada afinam o radar para captar os sinais mais sutis e não seguir andando em círculos. Desistir não é fraqueza: é a escolha corajosa de seguir por novos caminhos.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.
