Adriana Haas

Os voos curtos da mulher madura

Adriana Haas observa que, antes da grande metamorfose, existem tentativas menores que fortalecem a coragem e servem de teste para voos mais ousados

A diferença entre o voo do peixe-voador e o da mulher madura é que, enquanto ele retorna à água do mesmo jeito que saiu, ela volta transformada
A diferença entre o voo do peixe-voador e o da mulher madura é que, enquanto ele retorna à água do mesmo jeito que saiu, ela volta transformada Foto : John Cobb / Unsplash / CP

A borboleta é o animal símbolo das transformações por excelência – o que é muito justo, já que ela nasce a partir de uma lagarta que, depois de algum tempo em um casulo escuro e gosmento, sai voando com novas asas coloridas. É a metáfora animal perfeita para quem deseja promover mudanças que conduzam a uma vida com mais leveza e liberdade. No entanto, há outro animal sobre o qual pouco se fala, mas que também é capaz de se sustentar no ar: o peixe-voador.

Diferentemente da borboleta, que precisa abandonar tudo para conseguir voar, o peixe-voador pode planar sem ter que mudar de forma. Ele passa a maior parte do tempo em seu habitat natural, a água, mas quando percebe alguma ameaça, ganha velocidade e consegue saltar para o ar. Chega a planar por 200 metros, experimentando outro mundo, para retornar à mesma água – só que em um contexto diferente, onde possa seguir sua trajetória com mais desenvoltura.

Embora a borboleta seja mais sedutora, o peixe-voador também pode ser inspiração para mulheres na maturidade. Enquanto a borboleta se transforma apenas uma vez na vida, o peixe-voador consegue mudar de espaço várias vezes, por intervalos de tempo mais curtos, mas capazes de garantir sua sobrevivência. Quando a gente chega na maturidade, com a vida apoiada sobre estruturas muito sólidas, é difícil pensar em mudar tudo – mesmo quando essas estruturas já não dão mais conta de quem nos tornamos.

É aí que entram os voos rápidos do peixe-voador. Quando nosso contexto já não nos satisfaz e, ao mesmo tempo, não permite uma transição radical, podemos buscar experiências que exijam menos, mas permitam respirar outros ares e enxergar nossas vidas de pontos de vista diferentes. Pode ser um curso, uma viagem solo, um retiro, um trabalho voluntário, um estágio, uma roda de conversa, uma mentoria – qualquer coisa que a faça ganhar impulso para voar.

A diferença entre o voo do peixe e o da mulher madura é que, enquanto ele retorna à água do mesmo jeito que saiu, ela volta transformada (mesmo que seja um pouquinho).

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Recomeçar nem sempre é fácil e, com frequência, exige recursos dos quais não dispomos no momento. Nesses casos, em vez de esperar que o vento mude para uma direção mais favorável, podemos investir nas experiências curtas como teste (para ver se aquele caminho é mesmo o que desejamos) ou como um primeiro passo para a almejada transformação da lagarta em borboleta.

Se ficarmos imóveis esperando o momento perfeito para a grande metamorfose, o tempo vai passar sem que façamos os pequenos movimentos possíveis. Ainda que sejam discretos, imperceptíveis para os outros, eles podem ser pontes que nos aproximam de nós mesmas. E nesse outro lado, mesmo que tudo pareça igual, nós não estamos mais do mesmo jeito. Já sabemos transitar entre mundos – e, nessa alternância, vamos fortalecendo a coragem para voos mais ousados.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.