Uma influenciadora que fala sobre maturidade repostou um vídeo com uma “anedota” sobre a transição hormonal da menopausa. O vídeo mostra o que parece ser um corredor de hospital onde uma mulher fala e ri alto ao telefone. A certa altura, outra mulher, sentada ao lado, perde a paciência, arranca o telefone da orelha da colega e o joga longe – o que é explicado na legenda como “a perimenopausa sem reposição hormonal”. Ou seja: a causa da irritação de uma mulher madura pode ser apontada em 15 segundos como “hormônios desregulados”.
Entretanto, se parássemos de rolar o feed para analisar melhor a cena, a que outras conclusões poderíamos chegar? No corredor de um hospital, aquela mulher poderia estar com os nervos à flor da pele por aguardar (ou ter acabado de receber) o diagnóstico de uma doença.
Poderia também estar à espera de notícias sobre o estado de saúde de alguém querido que passasse por uma cirurgia. Ou, ainda, procurando as palavras que diria dali a instantes a um profissional de saúde mental, em busca de apoio para um período de profunda tristeza e perda de sentido.
Talvez estivesse simplesmente exausta depois de uma vida inteira de trabalho doméstico e de cuidados familiares não remunerados e invisibilizados. Ou cansada de ser o suporte social e emocional da família – aquela que organiza, antecipa, sustenta e acolhe, especialmente os homens, que não foram socializados para fazer isso entre si.
Não seria de espantar que duas ou mais dessas circunstâncias estivessem coincidindo na vida daquela mulher – porque é o que acontece na vida da grande maioria das mulheres maduras.
Contudo, esse apagamento de contexto transforma uma cena possível em caricatura e joga sobre os hormônios a responsabilidade por qualquer sinal de exaustão e irritabilidade, como se fôssemos reduzidas a eles. Isso simplifica conjunturas muito complexas para nos manter silenciadas e vender soluções.
A transição da menopausa não é um evento pontual nem uma falha hormonal: é um processo biopsicossocial. As flutuações hormonais existem, mas seus efeitos são modulados por fatores psicológicos, sociais, históricos e contextuais. Os sintomas psíquicos (e até mesmo os físicos) são influenciados por fatores como histórico de depressão ou ansiedade, estresse crônico, eventos adversos ao longo da vida, sobrecarga de cuidado e desigualdades de gênero.
Portanto, reduzir essa etapa a hormônios não apenas nos apequena, mas também nos impede de observar situações a que nos submetemos ao longo de toda a primeira metade da vida como se fossem “naturais” – e de aproveitar este momento de intensas mudanças pessoais para reavaliá-las e encontrar alternativas.
- Amizade é, sobretudo, questão de tempo
- O futuro que não tem idade
- A maturidade oferece outros horizontes
Por trabalhar com mulheres maduras, recebo muitos vídeos parecidos com esse, como “brincadeirinha”. No entanto, quando rimos desse tipo de piada, estamos ridicularizando a nós mesmas – e, depois que a risada termina, a associação entre menopausa e descontrole emocional permanece. Ela passa a operar dentro de nós de forma silenciosa e enfraquece nossa capacidade de imaginar futuros vivos e férteis. A piada perde a graça enquanto perdemos autoconfiança.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
