Assistia na televisão a uma reportagem sobre a vida em uma comunidade rural que vinha prosperando graças ao trabalho conjunto de pessoas de diferentes gerações. No entanto, quando o repórter deslocou a perspectiva do presente para o futuro, afirmou que este pertencia às crianças e adolescentes. A matéria encerrou com uma imagem da gurizada erguendo os braços, em gritos de uma vitória que ainda estava por vir.
Todo mundo conhece o clichê: as crianças são o futuro. De fato, são elas que (com sorte, mas sem garantias) terão mais tempo para desfrutar do que ainda virá a ser. Isso, no entanto, não torna o futuro propriedade exclusiva delas. Há futuro em qualquer idade – e a quantidade de tempo disponível não determina, por si só, a qualidade do que pode ser vivido.
O clichê, entretanto, não passa por nós sem produzir efeitos, assim como tantos outros ditados e crenças associados ao envelhecimento. Ainda que estejamos vivendo mais tempo e, em muitos casos, com mais qualidade do que há algumas décadas, não nos parece natural acreditar que o futuro também pertence a quem já está na maturidade e que há muito a se fazer com ele.
Para derrubar essa limitação autoimposta, é preciso “deslegitimar” a ideia de que já perdemos a vez – uma noção que, em uma sociedade etarista, vai além do que se diz ou se pensa: está entranhada no inconsciente e acaba determinando a forma como caminhamos pela vida.
Esse condicionamento restringe inclusive a imaginação de futuros possíveis, que deixam de ser reconhecidos como tais. A ele se acrescenta a inexistência de um “manual de instruções” que, seguido à risca, seria garantia de sucesso – como aquele que nos foi apresentado na juventude, de forma mais ou menos explícita.
Esse manual definia os passos a serem seguidos, o tempo certo para cada um deles e, sobretudo, os papéis a serem desempenhados, que variavam de acordo com o sexo. Para os homens, a função principal era o provimento da família; às mulheres, eram atribuídos a reprodução, o cuidado dos filhos e o apoio incondicional às iniciativas do marido.
Enquanto a eles era permitido desenvolver projetos pessoais paralelos (do tipo que nos aproxima de sonhos e propósitos), nós precisávamos nos dar por satisfeitas com os papéis de mãe e esposa – até porque, somando a isso o trabalho fora de casa, não sobrava tempo nem para o presente, quem dirá para o futuro.
- Estamos construindo a nova meia-idade
- Reconhecer nossas virtudes é maturidade
- A idade não é só um número
Olhando por esse lado, quem está na segunda metade da vida tem uma clara vantagem em relação ao futuro, que não é a de mais tempo, mas a de mais liberdade. Reconhecê-la é um gesto pessoal, mas também político: afirmar que há múltiplas perspectivas na maturidade é recusar a lógica que nos quer apenas como plateia e reivindicar o direito de seguir em cena como protagonistas.
Sem roteiros a serem seguidos, temos a oportunidade de redefinir o que consideramos sucesso e criar nossas próprias trajetórias para chegar lá – com a autorização, concedida por nós mesmas, de mudar no meio do caminho, se assim desejarmos. Reverter, na prática, os clichês que nos limitaram também é uma forma de construir futuro.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
