Em uma das colunas anteriores, sugeri o “chá da menopausa”: um encontro com as amigas que também estão enfrentando os desafios dessa transição hormonal para conversar sobre o assunto sem vergonhas ou receios. Agora quero aproveitar o clima de fim de ano, que mistura comemoração e reflexão, para propor o “chá das virtudes”.
Em linhas gerais, funciona assim: você chama algumas amigas, serve um chazinho e cada convidada leva um quitute – mas o prato principal é a generosidade com que todas vão apontar nas outras as qualidades que admiram. O compromisso, no entanto, é ir além do que a colega FAZ de forma eficiente e nomear as virtudes de quem É (e que, muitas vezes, ela mesma não consegue enxergar).
Vou dar um exemplo. Durante cinco dias da semana passada, estive reunida com minhas colegas da pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Foi uma imersão entre mulheres que conviveram virtualmente por um ano e meio e estavam ansiosas para se conhecerem em carne e osso, além de obterem o título de Parteiras da Maturidade. Era nossa formatura (ou “transformatura”, porque mulheres divertidas ressignificam as palavras brincando com elas).
E foi de “rabo de ouvido” que escutei uma colega dizer que gostaria de, um dia, ter a minha autoestima. Perguntei a mim mesma onde ela estava vendo aquilo que eu não enxergava. Depois, mais colegas apontaram minha autoconfiança como fonte de inspiração – justo eu, que avanço pela vida de mãos dadas com meus medos. Mas logo percebi não ser a única com a vista embaçada para as próprias virtudes. Em uma roda de declaração de compromissos, todas diziam buscar aquilo que nelas já era evidente aos olhos das outras – só precisava ser encontrado e lapidado.
A maioria de nós, além de ficar meio desconfortável ao receber elogios, tem dificuldade em reconhecer as qualidades de onde eles se originam. Não é uma “falha pessoal", mas consequência da forma como somos ensinadas a buscar a perfeição em todas as áreas – e como ela não existe, acabamos nos sentindo eternamente inadequadas. Dessa forma, passamos a enxergar no espelho apenas o “insuficiente” e internalizamos a ideia de que as “faltas” podem ser compensadas quando nos doamos em excesso ou compramos alguma “solução”. Mulheres entristecidas são úteis e lucrativas para muita gente – menos para nós mesmas.
O caminho mais bonito para nos reencontrarmos com nossas qualidades é o olhar de outra mulher – especialmente na maturidade, quando já temos repertório emocional suficiente para reconhecer que a competitividade entre nós é um mito criado para nos distanciar. Por isso, ela não é servida no chá das virtudes.
A maturidade é um convite a mudar a forma como enxergamos as outras e a nós mesmas. Aproveite o período de confraternizações, proponha o chá das virtudes e deixe que ele se repita ao longo de 2026 e além. Em um mundo que lucra com mulheres inseguras, reconhecer nosso valor é o puro suco da transgressão.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.