Parece automático: basta que dezembro chegue para que a gente comece um “inventário” sobre o ano que está prestes a terminar. Mesmo sem a menor intenção de fazer isso (ou até quando insistimos que “o fim do ano é um dia como qualquer outro”), nos pegamos ranqueando sucessos e fracassos – e torcendo para que, ao final, o saldo seja positivo.
Na verdade, essa é mesmo uma ação automática levada adiante por nosso cérebro contador de histórias. Quando um ciclo se aproxima do término (como o calendário anual), o cérebro naturalmente ativa processos de fechamento narrativo, como revisão de acontecimentos e avaliação de conquistas e faltas. Isso nos oferece um senso de controle – muitas vezes ilusório, mas que nos ajuda a ordenar a realidade.
O problema dos balanços de final de ano de muitas mulheres é que, em vez de considerarem os próprios feitos, tomam como seus as perdas e ganhos alheios. Isso é muito comum em relação a parceiros românticos e filhos, de cujas realizações participamos como se fossem nossas. Mas não são. É delicioso vibrar com a conquista de quem a gente ama, mas não nos tira a responsabilidade de protagonizar nossas próprias ascensões e quedas. Se você tem fingido que elas não fazem falta na retrospectiva de ano após ano, certamente farão na do final da vida.
- Amar aos 60 é melhor que aos 16
- A maturidade é a fase da soberania
- Cuide de cada passo para chegar inteira
A australiana Bronnie Ware, que por muitos anos cuidou de pacientes terminais, escreveu um livro apontando os cinco maiores arrependimentos daquelas pessoas. Em primeiríssimo lugar está a falta de coragem para viver a vida que desejavam, em detrimento da vida que os outros esperavam delas – o que pode ser traduzido como “ter aberto mão de seus sonhos”. Acontece que, como canta Emicida, “você é a única representante do seu sonho na face da Terra”. Se abriu mão dos seus durante a primeira metade da vida, já deve estar sentindo o peso dessa responsabilidade agora, na maturidade, quando o caminho à frente começa a se tornar mais curto do que o percorrido.
Talvez seja por isso que dezembro cutuca um lugar sensível: não porque o ano terminou, mas porque nos lembra que todos os ciclos se encerram. Se não reivindicarmos nossos sonhos agora – com a clareza e a coragem que só essa fase da vida oferece –, o tempo se torna cada vez mais escasso. E para dar o passo necessário, não precisamos de listas intermináveis nem de promessas grandiosas, mas de um gesto inaugural, ainda que singelo, que imprima neste novo ciclo a nossa assinatura.
No fundo, o que o cérebro tenta fazer com seus inventários no fim do ano é o mesmo que a vida busca todos os dias: pedir que assumamos a responsabilidade por escrever nossas próprias histórias. Porque, na maturidade, o tempo pode até ficar mais curto – mas a liberdade, se permitirmos, fica muito maior.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.