Foi no outono da vida que ela se tornou mais solar. Os anos primaveris da infância germinaram traumas profundos, que ganharam corpo no calor da juventude – a ciranda das estações que a maioria de nós atravessa sem perceber. Apesar dos esforços para impedir que as dores orientassem suas escolhas (e das consideráveis vitórias alcançadas), sentia que algo de fundamental ainda estava faltando. E, suspeitou, talvez fosse a liberdade.
Mas de que liberdade estamos falando quando se trata de uma mulher independente, solteira, sem filhos, com dinheiro suficiente para realizar seus projetos, diplomas e certificados no currículo? Ela decidiu investigar quando entrou no carro e dirigiu por alguns quilômetros até uma praia onde, pela primeira vez, passou cinco dias sozinha – não na solidão que isola, mas na solitude que aproxima de si. E ainda que cultivasse momentos parecidos no cotidiano, viveu a experiência de aproximação consigo em outro nível, com a intimidade que o piloto automático dos afazeres não permite.
Pude acompanhar sua jornada à distância enquanto finalizava a escrita do Workbook Viagem-Crisálida, um “manual” para mulheres que desejam fazer viagens solo como experiências de transformação pessoal na maturidade. Ela foi, ao mesmo tempo, “cobaia” e inspiração. Dei-lhe o livro ainda inacabado para leitura e, em troca, ela me devolveu um relato precioso de amor próprio em ação. Contou-me, entre outras histórias, sobre a decisão de encarar uma estrada que parecia difícil demais para suas habilidades como motorista e que, percorrida, tornou-se prova de que era capaz de muito mais do que supunha.
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Isso aconteceu há cerca de um ano. Alguns dias atrás, ela decidiu repetir a experiência – dessa vez, mais segura de que ficaria confortável na própria companhia. A coragem funciona assim, como um músculo que se fortalece à medida que é usado. Ao final desse novo período, mandou-me a foto da conversa com a anfitriã do lugar onde ficou hospedada, que lhe escreveu: “amei conhecer uma mulher com um autoamor tão grande”.
Ela imaginou ter causado a impressão apenas por ter viajado sozinha, mas essa foi apenas a camada visível. Há uma força enorme por trás de cada pequena transgressão que uma mulher realiza em nome da liberdade. Eu aprecio as viagens solo como representação dessas ousadias, mas podem ser muitas outras – como um “não” que estabelece limites ou um “sim” que abre perspectivas. Atitudes que vêm acompanhadas de desconforto e até de culpa, mas que também nos enchem de orgulho. A liberdade cobra seu preço, mas oferece seu deleite.
Não foi apenas a anfitriã que se deixou contagiar pelo calor daquela mulher. Na maturidade, o outono da vida, ela está florescendo novos sonhos, reencontrando a vitalidade, se desprendendo do que não serve mais e recolhendo-se quando sua natureza pede. Em uma estação repleta de transformações silenciosas, está permitindo que a luz ocupe o espaço das regras de conduta estabelecidas para “uma mulher nessa idade”. Ela sabe que as maduras já percorreram estradas suficientes para não se deixarem definir pelo calendário – e perdeu o medo de encarar as que ainda tem pela frente.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
